| Manifestações oculares por observação do eclipse solar |
A cada eclipse que ocorre, a literatura oftalmológica se enriquece com
novos casos de lesões oculares de natureza fototraumática. Nesse
sentido foi feita uma retrospectiva das publicações sobre as manifestações
oculares das radiações solares.
Desde a antigüidade é conhecido que os eclipses solares provocam
lesões na retina. A primeira menção se acha nos anais chineses
do ano 2158 A.C. . Depois St. Ives em 1722, descreveu um caso de cegueira por
eclipse e Coccius em 1853 fez a descrição oftalmológica
de maculopatia por fototraumatismo. Dufour em 1880, escreveu o primeiro trabalho
científico sobre o eclipse ocorrido em 19 de junho de 1879.
Quanto aos fototraumatismos oculares análogos aos eclipses, não
podemos deixar de citar que Galileo Galilei notou baixa de acuidade visual em
seu olho direito por observação do sol com seu telescópio.
Em 1944, Cordes e Cols. Relataram dois casos durante a II Guerra Mundial, naqueles
que permaneciam observando o céu em dia de sol intenso, com binóculos,
a procura de aviões. Tower, em 1948 relatou casos de queimadura ocular
em pacientes que usavam como prática inconcebível de fortalecimento
dos olhos, ficar olhando para o sol. Em 1950 Cogen e Cols. relataram um caso
observado pela explosão de Hiroshima. Em 1955, Bynes e Cols. descreveram
casos ocorridos por observação dos testes de explosão em
Nevada, USA. Estas queimaduras podem ocorrer a uma distância surpreendente
de 40 ou 50 milhas, desde que a pupila esteja dilatada no momento do flash.
Os eclipses de 1858, 1882, 1900, 19l2, 1943, 1945 e 1947, trouxeram numerosos
casos apresentados por diversos autores. Em 1962, Penner e MacNair relataram
no Havaí, 43 manifestações oculares observadas após
eclipse.
FATORES QUE INTERFEREM NA INCIDÊNCIA E GRAVIDADE DAS LESÕES OCULARES:
1- Época do ano; 2- Altura do sol; 3- Grau do eclipse; 4- Quantidade de nuvens.
Não podemos deixar de realçar a importância no aumento do número de pacientes em decorrência da divulgação pela mídia, principalmente quando ocorrem deturpações, relacionando o eclipse à catástrofes como o fim do mundo, previsões, etc... . É válido levar em consideração o dia da semana, pois se for domingo ou feriado, sempre haverá um número maior de observadores.
MANIFESTAÇÕES OCULARES:
A irradiação necessária para produzir lesões oculares
em coelho é aproximadamente de 50 cal/sq cm/min., por 30 segundos ( Eccles
e Flynn - 1944 ) e a dilatação da pupila pode ser considerada
como fator agravante.
As lesões bilaterais são as mais freqüentes, porém,
quando unilateral, o olho direito é o mais afetado por ser o olho dominante
na maioria da população e nestes casos os pacientes começam
a observar os sintomas muitos dias após ao fototraumatismo. A refração
do olho pode ter importância na gravidade do caso. O fato de os raios
luminosos incidirem diretamente sobre a retina dos emétropes ou dos leves
hipermétropes traz mais riscos de injúria, como também
dos altos hipermétropes com lentes corretoras ( Bohm - 1913 ). O alto
índice de difração do cristalino dos jovens, os tornam
mais vulneráveis, daí os trabalhos mostrarem a alta incidência
em crianças.
Em relação aos afácicos foi relatado casos de pacientes
operados de catarata unilateral que observaram o eclipse com os dois olhos,
tendo lesado apenas o olho afácico ( Huhn - 1925 ).
Na maioria dos casos nada anormal é notado imediatamente, exceto a sensação
de ofuscamento, mas rapidamente uma turvação difusa flutua frente
a visão, usualmente associada à pós-imagem, fotofobia e,
ocasionalmente, fotofobia e cromatopsia ( vermelho, amarelo, azul ). Depois
de 24 horas, esse nublamento difuso transforma-se num intenso escotoma, que
pode durar semanas ou meses e até tornar-se permanente. Esse escotoma
é tipicamente central, reduzindo a acuidade em média pela metade
e, freqüentemente, para 1/10 ou menos. Pode ser absoluto ou relativo e
mesmo inicialmente absoluto e tardiamente relativo. Uma metamorforpsia pode
aparecer no campo central, devido ao deslocamento da retina edemaciada, ou por
mudanças degenerativas, podendo ocorrer cefaléia e dor retro-bulbar.
SINAIS OBJETIVOS:
Na mácula podemos observar inicialmente, uma congestão coroidiana,
tornando-a mais escura. Isto é observado nos casos mais brandos e é
considerado o estágio 1 do fototraumatismo. O edema por sua vez é
a manifestação dos casos mais severos podendo estar acompanhado
de micro hemorragias. Em alguns casos surge uma mancha amarelada, ovalada e
elevada na fóvea, circundada por uma zona irregular de pigmentação.
Há um eritema na mácula que desaparece, em média, com 35
dias passados do eclipse, sendo este considerado o estágio 2.
O estágio 3 é a retinite do eclipse propriamente dita. O estágio
mais grave que pode permanecer por 8 meses ou trazer conseqüências
irreversíveis. Caracteriza-se por um aumento da pigmentação
escura devido a queimadura do epitélio pigmentar da retina, podendo se
transformar num buraco de mácula, surgindo o deslocamento da retina.
Existem citações também de neurite óptica e obstruções
de vasos centrais da retina.
PREVENÇÃO
A
possibilidade de dano visual após a observação direta do
sol é conhecida desde tempos remotos, sendo a observação
do eclipse a causa mais comum de retinopatia solar. No entanto teoricamente
é uma condição evitável através de informações
corretas ao público sobre as lesões que podem ocorrer.
Existem diversos tipos de pseudo-protetores, tais como: óculos escuros,
lentes embaçadas, olhar através de pequenos orifícios,
filtros negativos e pálpebras parcialmente fechadas.
Esses pseudo-protetores não são eficazes e os trabalhos publicados
mostram que um grande número dos pacientes afetados alegam ter se protegido
usando filmes fotográficos, película de RX, óculos escuros,
etc... . Segundo Duke Elder, eles não podem dar uma proteção
efetiva, conseguindo sim propiciar um conforto momentâneo, prolongando
a exposição e, por conseqüência, facilitando a possibilidade
de dano.
Existem filtros especiais como da lente metalizada fabricada pela QUESTAR Co.
Para ser usado como objetiva nos telescópios da mesma marca e o Solar
Serene, filtro com alumínio da Rogar W. Tutthil Inc. Usado como filtro
e objetiva para fotografia e observações, no entanto, além
de dispendiosos, são inacessíveis para o público em geral.
O método mais seguro de observação é sem dúvida
utilizar um aparato que permite a entrada de luz solar através de um
orifício numa cartolina e focar a imagem em outra cartolina preta colocada
paralela a primeira, e perpendicular aos raios, nesta última podemos
observar a imagem sombreada formada, com perfeita segurança.
PROGNÓSTICO:
Apesar
da dificuldade visual na retinopatia solar pode ser permanente, a maioria dos
casos no primeiro ou no segundo mês há melhora da visão
e o escotoma quando persiste, torna-se suficientemente discreto, possibilitando
a visão central.
Há casos em que a regressão dos sintomas só começa
a ocorrer após 18 meses e outros em que as lesões características
das retinipatias só aparecem três anos após a observação
do eclipse.
CONCLUSÃO:
A
intenção desta revisão na literatura é ressaltar
a importância do esclarecimento à população em geral
a respeito das medidas usadas para se observar um eclipse, sendo os métodos
popularmente conhecidos como seguros e portanto largamente utilizados, ineficazes
no que diz respeito à prevenção das lesões das estruturas
oculares.
SUSANA KAYAT é médica oftalmologista
BIBLIOGRAFIA:
1-NICOLI,
Carlos Alezzandrini e ARTURO Alberto - Lesiones Maculares Por Eclipse. Archivos
de Oftalmologia de Buenos Aires. 43:146-150, 1968
2-PENNER, Robert - Eclipse Blindness. American Journal de Ophthalmology. 61:
1452 - 1457, 1966
Fonte: Extraído da revista Benjamin Constant número 01 - setembro de 1995 - publicação técnico científica do Centro de Pesquisa, Documentação e Informação do Instituto Benjamin Constant (IBCENTRO/MEC).