| A importância da atividade de vida diária na educação e na reabilitação de deficientes visuais |
I- INTRODUÇÃO
Na educação da criança cega ou portadora de visão
subnormal, cabe ressaltar a importância da Atividade de Vida Diária
- AVD, cujo objetivo é proporcionar à criança condições
para que, dentro de suas potencialidades, possa formar hábitos de auto-suficiência
que lhe permitam participar ativamente do ambiente em que vive.
Ao nascer, a criança encontra-se num estado de dependência total,
situação esta que, gradativamente, desaparece com seu crescimento,
e, já na fase pré-escolar, começa a alimentar-se, vestir-se,
ir ao banheiro sozinha e escovar os dentes sem necessitar de ajuda ou apenas
com ajuda parcial.
Em relação à criança cega ou portadora de visão
subnormal, como isso ocorre?
Como proporcionar-lhe a satisfação de necessidades tão
fundamentais?
Quais os anseios e dificuldades experimentados pelos pais em tais circunstâncias?
Na educação da criança cega ou de visão subnormal
destacamos a Atividade de Vida Diária - AVD - como área específica
de atendimento, por julgarmos indispensável ao seu ajustamento social.
Se os hábitos à mesa, a postura, a adequação para
se vestir e a higiene pessoal são comportamentos adaptativos, há
necessidade de um treinamento intensivo, porque a criança cega pode apresentar
atitudes inadequadas em algumas dessas situações. Sem dúvida,
ela, no espaço maior ou menor de tempo, acabará por realizar as
mesmas tarefas que as de visão normal, tomando-se em conta, é
claro, as diferenças individuais e a restrita capacidade de imitação
de quem não vê.
Muitos pais, diante das dificuldades de seus filhos, tornam-se superprotetores
e, assim, impedem a criança de vivenciar experiências que contribuirão
para a autonomia dela.
É de grande importância a realização de um trabalho
com os pais, paralelamente ao que é feito com seus filhos, através
de encontros e/ou reuniões, oportunizando-lhes a prática das Atividades
de Vida Diária, com eles desenvolvidas na escola.
Enquanto professora nesta área, fiz com que os pais vivenciassem uma
atividade de vida diária de olhos vendados, explicando-lhes sempre que
tal circunstância não era, nem pretendia ser, representativa da
cegueira, a fim de evitar que, pela associação desta com a escuridão
total, desenvolvessem ou aumentassem o sentimento de piedade por seus próprios
filhos.
A experiência foi proveitosa, pois eles sentiram e perceberam algumas
dificuldades, medos e inseguranças de seus filhos cegos ou de visão
subnormal e, assim, encontraram a melhor maneira de ajudá-los e orientá-los
em casa, nunca impedindo de realizarem algumas atividades, mas, ao contrário,
motivando-os sempre, contribuindo assim, cada vez mais, para sua independência
e conscientizando-se de que, também, são elementos importantíssimos
no processo de aprendizagem de seus filhos.
E a situação do indivíduo portador de deficiência
visual adquirida na idade adulta?
Por vezes, a perda da visão é gradativa, dando condições
a que o indivíduo, aos poucos, processe a sua readaptação.
No entanto, não são raros os casos de cegueira súbita,
por acidentes ou etiologias diversas.
Como tais pessoas nada sabem sobre a cegueira, não compreendem como possam
continuar a viver no mundo que eles aprenderam a construir e entender através
dos olhos.
A reabilitação dessas pessoas é um desafio para elas, familiares
e educadores, no sentido do ajustamento à sua nova condição
de vida, visando minimizar os efeitos psico-sociais causados pela perda visual.
II - ATIVIDADE DE VIDA DIÁRIA (AVD)
Vestir meias é complicado, até para quem não tem problemas de coordenação. Mesmo que não pareça, o ato de vestir meias envolve uma série de passos. Porisso, a professora ajuda Lia, colocando a meia até o calcanhar. Só falta ela dar o último puxão. Na próxima vez, a professora coloca a meia no pé e Lia precisará puxá-la até o calcanhar e depois para cima. Mais um pouco e ela já conseguirá vestir meia sozinha. (Windholz, 1988)
A criança só aprende aquilo que vive concretamente. É importante
que ela faça suas próprias descobertas através da manipulação,
exploração do ambiente físico-social. Para isso podem e
devem ser exploradas situações referentes à alimentação,
higiene pessoal, saúde, segurança, às atividades domésticas
e ao vestuário.
Assim, através do treinamento em AVD, a criança cega e de visão
subnormal aprende, entre outras coisas: localizar os alimentos no prato; cortar
alimentos; controlar a quantidade de comida do prato, sem derramar; controlar
a quantidade de comida no talher; servir-se à mesa; encher copos e garrafas;
receber visitas; vestir-se adequadamente; cuidar de sua aparência pessoal;
caminhar, sentar e gesticular de maneira adequada; prevenir-se contra acidentes
e remediá-los.
II.1-ALGUMAS ATIVIDADES ESPECÍFICAS
II.1.1- ALIMENTAÇÃO:
-beber liquído com auxílio de canudos;
-ingerir alimentos pastosos (sopa, mingau);
-morder e mastigar biscoitos;
-mastigar pão;
-descascar e mastigar bananas;
-beber liquídos usando o copo;
-espetar com o garfo alimentos e levá-los
à boca;
-colocar em seu prato alimentos que estejam numa vasilha maior;
- usar a faca para passar manteiga (patê ou etc) no pão ou biscoito;
-alimentar-se usando garfo e faca;
-servir-se de líquidos contidos numa jarra ou garrafa;
-usar a faca para descascar e cortar frutas, legumes e pão;
-mastigar de boca fechada;
-usar o guardanapo para limpar a boca, após as refeições.
II.l.2- HIGIENE
-pedir para ir ao banheiro e usar o vaso sanitário (de modo adequado);
-limpar-se após o uso do vaso sanitário;
-lavar e enxugar as mãos usando água, sabonete e toalha;
-lavar e enxugar o rosto;
-escovar os dentes;
-pentear os cabelos;
-tomar banho;
-trocar diariamente as roupas de baixo;
-cortar as unhas regularmente, com auxílio;
-reconhecer as roupas que estão sujas e lavá-las.
II.l.3-
VESTUÁRIO:
-brincar com bonecas despindo-as e vestindo-as;
-despir-se e vestir-se;
-desatar os cordões dos sapatos;
-tirar os sapatos e as meias;
-calçar meias e sapatos;
-identificar os seus sapatos entre vários outros pares;
-engraxar sapatos;
-manejar diversos tipos de botões ( em tamanhos grandes ) utilizados
nas peças do vestuário;
-abrir e fechar ziper de casacos ou vestidos;
-abrir e fechar fivelas de seus próprios cintos;
-retirar e colocar blusas que entrem pelo decote, reconhecendo a parte de trás
pela etiqueta que deve estar presa;
-guardar roupas em gavetas e
-colocar camisas, blusas e vestidos em cabides.
II.1.4 - SAÚDE E SEGURANÇA
-reconhecer a importância do médico e do dentista;
-reconhecer a importância dos exames de saúde e submeter-se a eles
quando necessário;
-tomar adequadamente os remédios indicados;
-reconhecer alguns instrumentos médicos, como termômetro, balança
etc;
-reconhecer e saber para que serve gaze, algodão, esparadrapo, tesoura,
mercúrio cromo, água oxigenada etc;
-cuidar de pequenos arranhões ou ferimentos;
-organizar uma caixa de primeiros socorros;
-saber dizer o seu nome, endereço e telefone de sua casa;
-discar e falar ao telefone;
-atender sinal de chamado (campainha, telefone);
-subir e descer escadas com cuidado, segurando o corrimão;
-riscar fósforos para acender velas e fogões;
-saber utilizar o fogão em atividades simples, apagando-o convenientemente
ao término da tarefa e
-ligar e desligar o rádio e a televisão.
II.1.5-
ATIVIDADES DOMÉSTICAS
- tirar o pó dos móveis;
- varrer o chão;
- usar a pá de lixo;
- colocar o lixo na lixeira;
- passar pano molhado no chão;
- lavar o chão;
- usar o rodo;
- encerar o chão;
- limpar as mesas e as cadeiras;
- limpar e arrumar o armário;
- arrumar a cama;
- colocar fronha no travesseiro;
- lavar e passar roupas;
- tampar garrafas;
- preparar a mesa para as refeições;
- preparar pequenas refeições e
- fazer pequenas compras ( feiras e supermercados).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1-
Apostila de Atividade de Vida Diária. Secretaria de Estado de Educação
e Cultura do Rio de Janeiro. Coordenação de Educação
Especial. n. 5. 1985
2- JESUS, Elisabeth Ferreira. Atividade de Vida Diária. Apostila. Rio
de Janeiro. 1994
3- WINDHOLF, Margarida Hofman. Passo a Passo, seu Caminho. São Paulo.
EDICON. 1988
ELISABETH FERREIRA DE JESUS é professora e Coordenadora do Programa Educacional Alternativo - PREA- do Instituto Benjamin Constant
Fonte: Extraído da revista Benjamin Constant número 03 - maio de 1996 - publicação técnico científica do Centro de Pesquisa, Documentação e Informação do Instituto Benjamin Constant (IBCENTRO/MEC).