| Desenvolvimento tátil e suas implicações na educação de crianças cegas |
A
modalidade tátil é de ampla confiabilidade. Vai além do
mero sentido do tato; inclui também a percepção e a interpretação
por meio da exploração sensorial. Esta modalidade fornece informações
a respeito do ambiente, menos refinadas que as fornecidas pela visão.
As informações obtidas por meio do tato têm de ser adquiridas
sistematicamente, e reguladas de acordo com o desenvolvimento, para que os estímulos
ambientais sejam significativos. Ao contrário, o sentido da visão,
que se desenvolveu com o passar do tempo, pode captar as informações
instantaneamente e pode também processar nuances de informação
por meio de input sensorial.
A ausência da modalidade visual exige experiências alternativas
de desenvolvimento, a fim de cultivar a inteligência e promover capacidades
sócio-adaptativas. O ponto central desses esforços é a
exploração do pleno desenvolvimento tátil. Nesse processo,
fica implícita uma compreensão das seqüências do desenvolvimento
dentro da modalidade tátil. São elas:
s consciência de qualidade tátil;
s reconhecimento da estrutura e da relação das partes com o todo;
s compreensão de representações gráficas;
s utilização de simbologia.
Todas as fases contêm níveis variados de aquisição
de habilidades relativas ao desenvolvimento.
Primeira fase
Consciência da qualidade tátil
Aspectos do desenvolvimento
A primeira fase do desenvolvimento tátil é a consciência
das qualidades táteis dos objetos. O sentido do tato começa com
a atenção prestada a texturas, temperaturas, superfícies
vibráteis e diferentes consistências. Pelo movimento das mãos,
as crianças cegas se dão conta das texturas, da presença
de materiais, e das inconsistências das substâncias. Também,
através do movimento das mãos, as crianças cegas podem
apreender os contornos, tamanhos e pesos. Essas informações são
recebidas sucessivamente, passando dos movimentos manuais grossos à exploração
mais detalhada dos objetos.
A consciência tátil geral será adquirida mais rapidamente
pela criança cega, se a elas forem apresentados objetos familiares no
ambiente que elas exploram (Barraga, 1976). Os pesquisadores têm observado
que crianças de olhos vendados demonstram técnicas progressivamente
mais sofisticadas de explorar objetos, à medida que ficam mais amadurecidas
(Vurpillot, 1976). Crianças de 3 e 4 anos exploravam objetos puxando,
rolando e apalpando esses objetos, somente mantendo um contato preliminar com
eles. Mais adiante, crianças de 6 anos de idade, de olhos vendados, mostraram
muito mais cuidado ao explorar objetos. Essas crianças usaram as mãos
para acompanhar o contorno dos objetos, testar os graus de resistência
que eles apresentavam, e examinar várias texturas.
Em contraste, as crianças videntes deixam patente um sistema no qual
as modalidades visual e tátil reforçam o processamento de informações
nas fases iniciais do desenvolvimento cognitivo. Em experiências realizadas
com crianças videntes, os resultados revelam que a visão auxilia
e antecipa o movimento da mão, ao acompanhar o formato de um objeto que
seja apresentado ao tato. Somente aos 3 meses de idade é que um objeto
já na mão atrai o olhar. Esses estudos de Bower, Broughton e Moore
(1970) demonstram a predominância inicial da visão sobre o tato;
mostram também que o insuficiente controle de habilidades por parte dos
bebês reflete um insatisfatório planejamento motor. Os estudos
mostram ainda que a visão é um sistema que prepara antecipadamente
a mão para segurar um objeto. O sentido do tato, no entanto, predomina
quando o objeto está na mão. Outra importante implicação
desses estudos é a de que a resposta do input tátil
é letárgica ao nascimento, porém aumenta à medida
que o organismo se desenvolve e amadurece.
Mesmo na idade pré-escolar, a diferenciação de características
de um objeto pelo uso da modalidade tátil é inexata. Durante este
período inicial de desenvolvimento, a percepção visual
ajuda a elucidar as informações recebidas pelo tato. Além
disso, a diferenciação tátil é usada por indivíduos,
para esclarecer informações recebidas visualmente em situações
não-habituais (DeLeon, Raskin e Gruen, 1970).
Aplicações educativas
A consciência de qualidade tátil implica em que as crianças
aprendam a mover as mãos para explorar objetos: isso as ajuda a perceber
a presença deles em seu ambiente. As crianças cegas também
aprendem a explorar objetos pela linha mediana do corpo, assim como a usar ambas
as mãos ao explorá-los. A consciência de qualidade tátil
também pode ser utilizada para fazer com que as crianças conheçam
várias texturas, que devem ser contrastantes. Inicialmente esses contrastes
podem ser: mole e duro, macio e áspero; devem ser apresentados em suas
gradações para ajudar as crianças cegas a serem mais proficientes
na diferenciação de texturas. Pelo aperfeiçoamento gradual
das técnicas de percepção, as crianças cegas podem
aprender os tamanhos e pesos relativos dos objetos. Nesta fase, essas revelações
vão deixando de ser comparações grosseiras para se tornarem
refinadas. Dessa forma, as crianças podem aprender os conceitos de pesado
e leve, ou grande e pequeno, e em seguida aprender os diferentes graus dessas
comparações.
Segunda fase
Conceito e
reconhecimento de forma
Aspectos do desenvolvimento
Um segundo nível do desenvolvimento tátil é o conceito
e o reconhecimento do relacionamento do todo com as partes. Em estudos feitos
por Vurpillot (1976), descobriu-se que antes dos três anos de idade, crianças
não-deficientes não têm modelos de representação
separados das ações sobre um objeto. Este período de modelo
de ação é semelhante ao esquema sensorial-motor de Piaget.
Após os três anos, porém, os objetos podem ser comparados
num esquema mais do tipo mediação. A criança pode comparar
o que é lembrado com o que é percebido. Vurpillot declarou que
a transferência intra-modal tátil-tátil ocorre tardiamente
e produz desempenho inferior, se comparado com a transferência de conhecimento
visual-visual. Uma explicação para este desempenho inferior está
em que o sistema visual permite a experiência simultânea da informação,
ao passo que o sistema tátil proporciona apenas uma experiência
limitada da informação, de maneira sucessiva.
Esta fase revela diferenças entre as crianças cegas, alunas da
2a à 8a série, no que diz respeito à sua capacidade de
distinguir a forma de um objeto. Estes estudos concluíram que as crianças
cegas possuem o conceito de orientação de uma figura tátil
no espaço, porém este conceito é fraco. Outros resultados
desses estudos indicam que alunos cegos encontram um detalhe característico
de um objeto, que os ajuda a discriminá-lo. Verificou-se que quanto mais
complexo o objeto, mais tempo levava para que os alunos cegos encontrassem um
detalhe significativo para identificá-lo. Ainda um outro resultado do
estudo foi que crianças pequenas seguravam o objeto descuidadamente,
sem nenhuma atividade organizada de investigação. As crianças
cegas de mais idade sistematicamente procuravam determinar a forma e os traços
característicos de um objeto (Berlá, 1974).
Dubose (1976) verificou que a locomoção ajuda a explorar direções
e orientação, assim como a desenvolver relacionamento entre objetos
no espaço. As crianças cegas precisam de auxílio que as
encoraje a manipular, transferir e soltar os objetos: para elas, não
haverá aprendizagem se não houver estímulo. Elas precisam
de atividades táteis e auditivas que dêem ênfase a operações
mentais, discernimento de perceptividade, constância de closura*, discernimento
de figura/fundo, reconhecimento de relações espaciais, memória
de figura/fundo, raciocínio convergente e divergente, e avaliação.
Warren (1977) observou que o discernimento de formas por parte de crianças
cegas melhora com a prática. Crianças pequenas cegas não
se saem tão bem quanto as crianças pequenas videntes no que se
refere à localização e discriminação de formas.
Já as crianças mais velhas cegas discriminam e localizam formas
melhor que as crianças videntes da mesma faixa etária.
Aplicações educativas
Os componentes mais importantes do conceito e reconhecimento da forma são
a clareza e a simplicidade do desenho e exploração ativa do objeto.
Inicialmente deve-se ensinar às crianças cegas formas simples,
de tamanho pequeno, que elas possam segurar com as mãos, tais como uma
bola ou um cubo. Mais tarde, esses mesmos objetos devem ser ensinados em tamanho
maior, o que talvez necessite que as crianças se movam em torno do objeto
para explorar sua forma. Por exemplo, as crianças podem explorar o formato
geral de um quadro de giz, andando ao redor dele para descobrir o formato total
de um objeto grande demais para se ter nas mãos. Para prosseguir no desenvolvimento
da concepção e reconhecimento de formas, será necessário
usar objetos mais complexos. Quando as crianças cegas já conhecem
bem as formas de natureza tridimensional, devem ser apresentadas a objetos bidimensionais.
Também nesta fase de desenvolvimento tátil, as crianças
cegas devem aprender a reconhecer vários objetos e padrões dentro
de um cenário mais complexo. Um exemplo: a forma de um quadrado num conjunto
de retângulos, como se encontra em tapetes e tecidos em relevo para forração
de móveis.
Terceira fase
Representação gráfica
Aspectos do desenvolvimento
A fase seguinte, depois da exploração da forma e das partes interrelacionadas
dos objetos, é a representação gráfica. A perspectiva
espacial na representação gráfica difere das perspectivas
espaciais do manuseio de objetos. Ao passar para um nível mais abstrato
de representação gráfica, a criança cega deve se
familiarizar com formas geométricas tridimensionais pelo manuseio de
objetos sólidos antes de evoluir para a representação bidimensional
dos objetos. Uma vez que a forma já seja conhecida, ela deve ser apresentada
em vários tamanhos, para ajudar a criança a generalizar.
Entre as representações gráficas temos, em relevo, linhas
retas e curvas, formas geométricas e contornos de objetos. Sugere-se
que a representação gráfica seja apresentada aos poucos,
uma peça de cada vez. Apresentá-la por inteiro, antes que a criança
esteja familiarizada com as partes componentes, só causará confusão.
Essa confusão quanto à estimulação tátil
ainda não conhecida tem sido chamada de ruído tátil (Barraga,
1976).
Outro aspecto da representação gráfica é a dimensionalidade.
Abravanel (1970) notou que as crianças de 4 a 6 anos mostram preferência
por objetos tridimensionais, pois estes são percebidos ao serem agarrados,
seguros e apertados. O autor verificou também que, ao examinar objetos
bidimensionais, as crianças de idade pré-escolar prestam especial
atenção à textura. Outro aspecto da representação
gráfica é o relacionamento das representações táteis
com o espaço de locomoção. Simpkins (1979) constatou que
crianças portadoras de cegueira congênita têm dificuldades
em calcular as relações espaciais que não podem ser percebidas
diretamente. Isto se deve à falta de suficiente realimentação
para se conseguir coerência entre as estimativas motoras e verbais. Além
disso, os cegos congênitos não têm uma estratégia
bem definida para resolver problemas de orientação espacial cognitiva,
e freqüentemente produzem no espaço tátil relações
espaciais menos estáveis que as estabelecidas por indivíduos videntes.
As pesquisas muitas vezes indicam que não há leis de estrutura
semelhantes para diferentes modalidades, mas sim características específicas
de organização para várias modalidades sob várias
condições.
Uma tarefa difícil para as crianças cegas, na área de representação
gráfica é a leitura tátil de mapas. Os resultados de um
estudo realizado por Berlá, Butterfield & Murr (1976) mostram que
as crianças cegas que são eficientes na leitura de mapas examinam
a totalidade do mapa e acompanham várias vezes o traçado de todas
as linhas. Os autores constataram que os bons leitores de mapas escolhem um
ponto de origem, seguem o contorno de um objeto com um movimento contínuo
e voltam ao ponto de origem. Os que não são eficientes na leitura
de mapas não são sistemáticos em sua exploração.
Os bons leitores percebem detalhes característicos do mapa, usam o dedo
indicador para examinar os objetos, e sabem seguir o traçado melhor que
os outros leitores. Os autores indicam que, para a leitura de mapas, é
essencial a destreza em localizar formas no mapa, seguir os contornos, diferenciar
formas adjacentes e encontrar as características críticas de uma
figura. Um outro estudo de Berlá e Butterfield (1977) constatou que linhas
largas e salientes, que permitem separar os desenhos de um mapa são muito
úteis para ajudar estudantes cegos na leitura tátil de mapas.
Além desses estudos, há o de Lederman e Kinch (1979), que verificou
que elementos mais estreitos e espaços maiores entre os caracteres proporcionaram
maior sensação das protuberâncias e maior facilidade de
interpretação de elementos táteis dos mapas.
Aplicações educativas
A representação gráfica é caracterizada mediante
a maneira organizada que os estudantes cegos têm de explorar o ambiente,
relacionando objetos reais e suas representações. Um exemplo de
atividades exploratórias do ambiente é o de estudantes cegos criando
um sistema de explorar objetos. Este sistema poderia consistir em explorar inicialmente
a forma geral do objeto, depois o detalhe mais importante, e finalmente distinguir
alguns detalhes que possam ajudar a fazer uma identificação real.
Nem todos os detalhes são necessários para identificar ou utilizar
objetos.
A fase da representação gráfica pode também ser
caracterizada por estudantes cegos quando percebem que objetos pequenos podem
representar a constância de objetos maiores. Esse reconhecimento pode
ser desenvolvido com o uso de um mapa para representar uma área geográfica
maior, ou com o uso de um carrinho de brinquedo para representar um automóvel
de tamanho normal. Uma representação assim só terá
significado para crianças cegas depois que elas tenham tido a oportunidade
de explorar objetos verdadeiros. Em seguida, devem ser notadas as semelhanças
entre os objetos verdadeiros e sua representação. Esta associação
pode ser estimulada pelos pais e professores, tratando verbalmente com as crianças
cegas dessas semelhanças. Somente depois de feita tal associação
é que as representações podem ser usadas corretamente.
Quarta fase
Sistemas de simbologia
Aspectos do desenvolvimento
A utilização de um sistema de simbologia vem a ser o passo final
do desenvolvimento da modalidade tátil. Um dos sistemas mais comuns é
o Braille, um sistema de pontos perceptíveis pelo tato, que representam
os elementos da linguagem. Pesquisas sobre o Braille indicam que os caracteres
mais legíveis são os que têm o menor número de pontos.
Há também estudos que mostram que as seguintes condições
causam erros na leitura Braille. São elas, em ordem decrescente: palavras
abreviadas, múltiplas contrações na cela, contrações
nas partes inferior e superior da cela, palavras escritas por extenso e palavras
que designam o alfabeto (Nolan & Kederis, 1969).
Nolan & Kederis (1969) também verificaram que o reconhecimento dos
caracteres Braille é diretamente relacionado com o número de pontos
em relevo. São de mais fácil leitura as celas nas quais os pontos
salientes estão mais dispersos em sua parte superior. Além disso,
este estudo chegou à conclusão de que a unidade básica
perpétua em Braille é a cela Braille e não a palavra inteira.
O reconhecimento de uma palavra em Braille leva de 16% a 196% mais tempo que
o total das vezes necessárias para identificar os caracteres individuais.
Pesquisas realizadas mostram que o reconhecimento tátil de palavras envolve
atividades de closura, depois de todas as letras terem sido examinadas. A experiência
prévia com aspectos estruturais e gramaticais do idioma tem papel crucial
no reconhecimento de palavras (Moore & Bliss, 1975). Um outro fator que
afeta o reconhecimento do Braille é a capacidade mental, que influi na
rapidez com que os caracteres são reconhecidos (Nolan & Kederis,
1969).
Aplicações educativas
A utilização de sistemas de simbologia leva o entendimento da
representação um passo adiante da representação
gráfica. Na simbologia, a representação não precisa
ter semelhança com o original, mas simplesmente significa o objeto. As
crianças videntes aprendem a palavra impressa num processo gradual. Esse
domínio é geralmente ajudado por figuras e várias informações
do contexto. Para a criança cega essas informações não
existem. Para aprender Braille, as crianças cegas precisam memorizar
várias configurações dos pontos da cela Braille. Não
há padrões fáceis de palavras que elas possam decorar.
Mais adiante, as crianças cegas freqüentemente usam o Braille com
um grande número de contrações. Esse tipo de Braille exige
que a criança reconheça palavras abreviadas tanto na impressão
a tinta quanto em Braille, uma vez que se utilizam de convenções
distintas.
Ler Braille requer um procedimento muito sistemático para perceber todos
os detalhes da cela Braille. Esse procedimento freqüentemente utiliza a
progressão da esquerda para direita, atenção para não
pular linhas, reconhecimento geral dos símbolos Braille com a mão
direita, e discriminação cuidadosa dos símbolos com a mão
esquerda.
A modalidade tátil se desenvolve por um processo de crescimento gradual.
Esse processo é seqüencial e leva as crianças cegas de um
reconhecimento simplista a uma interpretação complexa do ambiente.
Os pais e educadores têm um papel importantíssimo neste processo,
porque estimulam o desenvolvimento das crianças cegas desde a infância.
Mais ainda, como responsáveis por crianças cegas, eles devem continuar
a dar ênfase ao desenvolvimento tátil, durante toda a vida destas
crianças, já que essa é a base para os níveis mais
altos do desenvolvimento cognitivo.
Conclusão
A realização de novas pesquisas deverá levar à utilização
mais eficaz da modalidade tátil no aprendizado das crianças cegas.
Um melhor entendimento da modalidade tátil servirá para a compreensão
clara de como as modalidades se interpenetram, para auxiliar o conhecimento
do eu na relação com o ambiente. Essa maior compreensão
das relações intermodais e intramodais é crucial para as
crianças cegas, porque oferecem meios e canais alternativos para proporcionar
informações a uma população de deficientes sensoriais.
Finalmente, o desenvolvimento sistemático da percepção
tátil é essencial para que os cegos cheguem a desenvolver a capacidade
de organizar, transferir e abstrair conceitos. Com a maior disponibilidade de
material em Braille, o conhecimento das limitações da modalidade
tátil será essencial para determinar as opções de
aprendizado para crianças cegas.
Nota: Neste artigo, foram omitidas referências ao aparelho de leitura óptica (OPTACON), por não corresponderem à realidade brasileira.
Harold C. Griffin é professor assistente e Paul J. Gerber é professor adjunto do Departamento de Educação Especial da Universidade de New Orleans.Tradução de Ilza Viegas; revisão de Paulo Felicíssimo e Vera Lúcia de Oliveira Vogel, professores do IBC.
Fonte: Extraído da revista Benjamin Constant número 05 - dezembro de 1996 - publicação técnico científica do Centro de Pesquisa, Documentação e Informação do Instituto Benjamin Constant (IBCENTRO/MEC).