| Assistência fisioterápica à criança portadora de cegueira congênita |
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- Reflexos Posturais
Reflexo Tônico Labiríntico (RTL)
Ocorre quando a cabeça se encontra numa posição horizontal
e na linha média. Os receptores estão localizados no ouvido interno
e são excitados pela ação da gravidade, agindo sobre os
canais semi-circulares. Na posição supina há um aumento
do tônus extensor, e na posição prona um aumento do tônus
flexor.
Reflexo Tônico Cervical Assimétrico (RTCA)
É produzido pela rotação da cabeça para um dos lados
na posição supina. Ele se manifesta pelo aumento do tônus
extensor dos membros para o lado em que a face está voltada e pelo aumento
do tônus flexor no dimídio contrário. Através deste
reflexo a criança pode observar por alguns momentos sua mão. Os
receptores estão localizados no pescoço.
Reflexo Tônico Cervical Simétrico (RTCS)
Ajuda a criança a vivenciar as primeiras experiências do arrastar
e posteriormente engatinhar. É observado colocando-se a criança
em suspensão ventral, quando sua cabeça é fletida. Seus
membros superiores se fletem e os inferiores se estendem, ocorrendo o inverso
quando tem a cabeça extendida. Seus receptores estão localizados
no pescoço.
Reação Positiva de Suporte
Permite que o recém-nato assuma a posição de pé
quando sustentado verticalmente. Ocorre quando a criança é sustentada
verticalmente e seu peso colocado sobre a região anterior do pé.
A resposta é uma contração dos músculos dos membros
inferiores, tornando-os capazes de sustentar o peso da criança por alguns
momentos. Este reflexo possibilita a primeira vivência da postura de pé.
3 - Reações de Endireitamento
As reações de endireitamento no homem não estão
completamente desenvolvidas ao nascimento. Somente as reações
de endirei-tamento do pescoço estão ativas, enquanto as outras
vão aparecendo em estágios específicos do desenvolvimento.
Estas reações tornam a criança capaz de virar de lado,
rolar, elevar a cabeça, ficar sobre suas mãos e joelhos e sentar.
Embora o comportamento inicial da criança seja controlado por um conjunto
integrado de reflexos subcorticais, ela logo aprenderá a usar esses padrões
básicos de coordenação em suas atividades voluntárias.
4 - Reações Protetoras
Este grupo de reações ocorre pela estimulação dos
canais semicirculares do ouvido interno.
A extensão protetora de braços (reação
de pára-quedas) pode ser observada quando a criança é segura
pelo tronco em suspensão e projetada rapidamente de cabeça para
baixo, ela responderá com a extensão dos membros superiores para
proteger-se da queda. As reações protetoras ocorrem para baixo,
para frente, para os lados e para trás. É uma reação
de defesa contra as quedas e também ajuda a manter o tronco em equilíbrio
na posição sentada. Consiste em duas fases: na primeira há
extensão do braço, pulso e dedos para atingir o solo ou outro
apoio; na segunda há a colocação do peso do corpo sobre
os membros superiores.
5 - Reações de Equilíbrio
Para que o homem evoluísse para a postura ereta, houve a necessidade
de desenvolver um mecanismo reflexo que permitisse a manutenção
e recuperação do equilíbrio estático e dinâmico.
Este mecanismo consiste em um grupo de reações automáticas,
denominadas reações de equilíbrio. Estas são mais
complexas que as reações de endireitamento e ocorrem pela estimulação
labiríntica. São movimentos compensatórios que respondem
como reajustes posturais, aos estímulos provenientes de alterações
do centro de gravidade. Estas reações asseguram uma postura adequada
do corpo quando ocorre uma alteração da superfície de apoio,
que conduz a uma modificação no centro de gravidade do corpo.
As reações de equilíbrio podem ser observadas colocando
a criança sobre uma mesa e inclinando a superfície, isto pode
ser feito em postura de prono, supino, sentada, em quatro apoios ou de pé.
Quando a superfície é inclinada, verifica-se um movimento compensatório
contrário ao deslocamento, na tentativa de manter o corpo em equilíbrio.
O desenvolvimento das reações de equilíbrio sobrepõe-se
às reações de endireitamento. As primeiras são responsáveis
pela transformação e modificação das últimas.
No aspecto clínico, sua importância no aprendizado de sentar, levantar
e andar é notória. Porém, é provável que
as reações de endireitamento não tornarão o paciente
capaz de ir além do estágio quadrúpede. Já as reações
de equilíbrio são essenciais para qualquer atividade além
deste estágio da motricidade.
Desenvolvimento motor
Para o fisioterapeuta é primordial o conhecimento do processo normal
do desenvolvimento da criança, para, desta forma, detectar os padrões
de anormalidade e intervir com a terapêutica mais adequada. O quadro seguinte
apresenta de forma reduzida as principais habilidades de acordo com a faixa
etária.
Quadro II - Desenvolvimento 0/24 meses (Eckersley)
Idade Habilidades
2 meses Sustenta cabeça em prono.
4 meses Sustenta a cabeça em prono e apóia sobre os antebraços.
Traz as mãos na linha média. Sustenta a cabeça quando puxada
para sentar.
5 meses Sustenta a cabeça em supino. Eleva o quadril em supino (ponte).
Rola para o lado. Apóia sobre as mãos com braços extendidos
(em prono). Busca um objeto com uma das mãos (em prono).
6 meses Senta com o auxílio das mãos. Rola de supino para prono.
Leva os pés à boca. Ajuda quando puxada para sentar.
7 meses Gira e empurra para trás em prono.
8 meses Arrasta-se para frente sobre os antebraços. Senta sem apoio.
Passa de supino para sentada. Passa de sentada para prono ou supino.
8/10 meses Engatinha em 4 apoios. Puxa-se para ficar de pé.
10/12 meses Passa da posição de pé para sentado. Anda com
ajuda de uma ou das duas mãos.
12 meses Realiza a marcha com auxílio.
13 meses Levanta-se para ficar em pé passando pela posição
de urso, ou de semi-ajoelhada para de pé sem auxílio. Marcha sem
auxílio.
15 meses Tem ótimo equilíbrio na posição sentada
e pode apoiar-se em todos os lados; mantém seu tronco bem estendido com
quadril fletido. Pernas em rotação externa. Boa rotação,
atitude simétrica. Fica em pé e passa desta posição
para qualquer outra. Desloca seu peso e faz adaptações posturais
às modificações de posição no espaço.
18 meses Na marcha, ainda há a atitude fisiológica em pé
plano valgo, apesar de observar-se arco plantar satisfatório à
palpação. As pernas estão em ligeira rotação
extrna por rotação deficiente do quadril. Abaixa-se para pegar
um objeto e volta à posição de pé. Sobe escadas
com ajuda. Quando caminha já pode frear bem.
24 meses Realiza pequenos saltos com os dois pés.
A
visão no desenvolvimento
e suas alterações
A importância da visão
A percepção visual é uma função bastante
complexa, que ocorre em três fases: primária, secundária
e terciária. Na fase primária há a captação
da imagem pelos receptores fotossensíveis localizados na retina. Essa
imagem é projetada no lobo occipital, onde se dá a recepção
do estímulo visual. Na fase secundária ocorre o reconhecimento
da imagem projetada, ela passa a ter um significado. Na fase terciária
ocorre uma integração cortical desta imagem reconhecida
com todos os outros sentidos (olfato, tato, audição, etc.). Portanto,
a visão está estreitamente correlacionada com as outras atividades
sensoriais, particularmente com o tato e a cinestesia.
Ver não é uma função independente, ela está
profundamente integrada ao desenvolvimento psicossomático da criança
- sua postura, coordenação, inteligência e personalidade.
Sendo a visão o mais sofisticado e objetivo dos sentidos, permite o reconhecimento
do mundo externo e fornece um relato minucioso, registrando simultaneamente
posição, forma, cor, tamanho e distância.
Déficit visual
No passado, a cegueira era considerada apenas como uma carência da visão.
Atualmente, o enfoque científico inclui todas as variedades concorrentes
a este objeto de estudo. Seria impossível estudar a cegueira como um
fato isolado, pois está em íntima relação com os
problemas que podem surgir em cada tipo de cegueira, e com a organização
psicomotora como um todo.
Além disso, é necessário levarmos em conta as especificidades
da criança cega congênita, em relação às que
ficam cegas posteriormente e às de baixa visão. Assim:
Classificação do déficit visual
A fim de chegarmos a uma melhor compreensão do déficit visual,
estabeleceremos a seguinte classificação:
Criança Cega Congênita
São aquelas crianças que apresentam cegueira no momento do nascimento
ou em período imediato, como seria o caso da retinopatia do prematuro
que ocorre mais amiúde em crianças prematuras, tratadas com altas
concentrações de oxigênio, durante os primeiros dias de
vida.
Crianças de Baixa Visão
São aquelas cuja acuidade visual é inferior a 10/30%, porém
sua eficácia visual é o principal fator a ser levado em conta.
Em alguns casos, já podemos observar crianças com muito baixa
visão, apresentando melhor funcionalidade do que crianças com
acuidade visual maior. Diversos fatores como: a inteligência, a motivação,
a estimulação visual, as influências do meio e a própria
individualidade da criança interferem no melhor aproveitamento da visão.
Crianças com Cegueira Adquirida
Depois de Doze Meses de Vida
Aqui levaremos em conta que estas crianças já enxergaram durante
as primeiras etapas de vida. Este fator é de grande importância
na organização das diversas estruturas mentais que irão
intervir no desenvolvimento sensoriomotor e na interação social
destas crianças. Mesmo que elas não retenham imagens visuais úteis,
utilizarão estruturas mentais ainda baseadas na visão, pois esta
monitora todas os outros órgãos sensoriais.
Crianças Cegas ou de Baixa Visão com Alterações
do Sistema Nervoso Central
Estas crianças apresentam uma maior heterogeneidade em seu desenvolvimento
dependendo do grau da lesão e da área cerebral comprometida. O
ritmo de desenvolvimento destas crianças será mais lento e a intervenção
profissional se torna mais urgente, para que possamos prevenir defasagens no
seu desenvolvimento psiconeuromotor.
A criança cega congênita
Conhecer as capacidades da criança cega torna-se necessário, para
que o profissional que tem seus constructos como objetivo ajudar esta clientela,
saiba, precocemente, o que tem em mãos para explorar no decorrer do processo
terapêutico. A criança cega não é capaz de se orientar,
nem realizar adaptações em seu sistema muscular de acordo com
as variações de posição, distância, tamanho
e forma. Pela ausência da visão, as combinações autocorretivas
de reforço mútuo entre a visão e as respostas motoras ficam
muito comprometidas. Não existe substituição de um sentido
por outro. O conjunto sensorial funciona em sinergismo onde nenhum dos sentidos
realiza suas funções de forma isolada, eles se retroalimentam.
A deficiência visual torna impossível o reconhecimento do mundo
através de imagens visuais. Por isso, a criança cega é
tão dependente do tato que fica difícil projetar imagens mentais
além da periferia de seu alcance. Além disso, a cegueira impõe
um maior grau de dificuldade na percepção do próprio corpo,
este se mistura ambigüamente com as roupas, cobertas e móveis. O
bebê cego não conta com a visão para fazer a distinção
fundamental entre seu eu anatômico e todas essas contingências ambientais.
As noções de distância e de espaço são adquiridas
através dos deslocamentos corporais. Isso se inicia no arrastar, no engatinhar
e posteriormente na marcha. Desta forma a criança passa a compreender
objetivos mais remotos e as distâncias percorridas. Já a criança
cega apresentará uma maior dificuldade de se deslocar devido à
falta do estímulo visual para despertar-lhe o interesse, e também
pela sensação de insegurança que qualquer criança
cega congênita apresenta nessa etapa de seu desenvolvimento. Se sua locomoção
é restrita, sua orientação espacial ficará prejudicada.
Desenvolver um tato ativo nestas crianças é fundamental. Desta
forma elas poderão explorar o ambiente, contornos e formas, formarão
imagens táteis, não se sentirão tão inseguras e
desinteressadas pelo meio externo; com isso passam a tomar conhecimento de detalhes
mais sutis de distância e das relações espaciais, facilitando
sua locomoção no espaço e sua integração
com o meio.
Além do tato, outro sentido importante de reconhecimento do meio para
a criança cega é a audição, apesar de não
compensar a ausência da visão. Na criança com visão
normal, a audição, monitorizada pelos olhos, é um sentido
de distância; para a criança cega é um sentido subjetivo,
por isso deve ser educada desde as primeiras horas de vida para que adquira
objetividade, localização e noção de distância.
A cegueira não é apenas a perda de um sentido isolado: é
a perda do sentido que gera a integração de todos os outros. Quando
ocorre no nascimento, afeta a criança no seu desenvolvimento psiconeuromotor.
Apesar disto a criança cega tem uma capacidade progressiva de ir se adaptando
a sua deficiência. Se for bem orientada desenvolverá suas potencialidades
plenamente. A deficiência visual não pode ser considerada como
agente etiológico de alterações cognitivas, motoras e psíquicas,
mas sim como um fator predisponente à instalação destes
quadros.
Em cada etapa do desenvolvimento uma capacidade emerge e é trabalhada
pelo organismo, passando a ser integrada em uma escala crescente de desenvolvimento.
Para que isto ocorra a criança necessita ser encorajada e reforçada
por seus pais. Se não há o reforço e motivação
esta criança será invadida por uma sensação de insegurança
e medo. O desenvolvimento psicomotor se realiza pela combinação
do prazer que a criança sente ao ter experimentado algo novo (uma aquisição
motora e/ou sensorial) e o reforço familiar à aquisição
feita por seu filho.
A cegueira é um obstáculo que interfere profundamente em todos
os subsistemas desde os primeiros momentos de vida. O organismo humano está
estruturado para realizar um contínuo feedback através da visão,
que exerce a função reguladora do tônus muscular e a monitorização
de todas as outras vias sensoriais (labiríntica, coclear, auditiva e
proprioceptiva) que vão constituir o suporte sensoriomotor.
Cegueira congênita e desenvolvimento
Lowenfeld, Wills, Faulke, Tobim, Leonhardt e outros investigadores coincidem
ao manifestar as grandes dificuldades, o alto risco e a vulnerabilidade que
a criança cega apresenta em seu desenvolvimento. Os estudos de Gomulicki,
sobre o desenvolvimento da percepção em crianças cegas
de cinco anos, nos mostram uma notável inferioridade em relação
às crianças videntes da mesma idade nas habilidades: do tato,
auditivas, manipulativas e motoras. Gomulicki afirma que a ausência da
função integradora da visão dificulta a utilização
dos outros sentidos.
O desenvolvimento se dá através de vivências, experiências
que vão sendo adquiridas. A visão é uma janela para o mundo.
Estabelece uma porta de entrada para todos os estímulos que irão,
principalmente nas primeiras etapas de vida, motivar a criança a se lançar
em novas experiências e conquistas. Na criança cega estas experiências
são mais restritas e limitadas e isto pode acarretar uma lentidão
e até mesmo anomalias no seu processo de maturação. Com
freqüência observamos crianças cegas, em torno de três
anos de idade, sem qualquer restrição anátomo-fisiológica
do equipamento motor, não realizando a marcha. Nestes casos, justifica-se
a intervenção fisioterápica desde os primeiros dias de
vida. Somente desta forma ela irá adquirindo experiências que a
levarão ao amadurecimento sensoriomotor.
A criança cega não tem motivação para descobrir
o mundo externo. A cegueira lhe impõe duas limitações básicas:
na quantidade e variedade de experiências e na mobilidade e domínio
de espaços desconhecidos.
Quantidade e variedade de experiências
A visão proporciona um mundo atraente com milhares de formas, cores,
situações e experiências. Fornece uma verificação
imediata e a impressão de elementos que estimulam a curiosidade e o interesse
da criança. Já vimos que as informações que recebemos
do meio através deste sentido constituem 80% do total recebido. A visão
desempenha, pois, um papel fundamental na função de síntese
e na formação de imagens no pensamento.
As crianças cegas congênitas constroem a imagem do mundo através
da integração dos sentidos restantes (auditivo, olfativo, gustativo,
proprioceptivo, tátil e cinestésico). Daí a necessidade
da estimulação destas estruturas sensoriais desde muito cedo,
para compensar a deficiência visual e diminuir a defasagem psicomotora,
que pode comprometer a evolução postural, o equilíbrio
estático e dinâmico.
O bebê cego ouve sons a sua volta, e vai elaborando uma série de
conhecimentos. Ouvir proporciona certa orientação de direção
e de distância do objeto sonoro, mas fornece pouca informação
sobre suas diferentes características (forma, tamanho, cor, posição
no espaço, etc.), especialmente quando não é possível
correlacioná-lo com experiências anteriores. O profissional deve
orientar os pais de forma que eles compreendam a importância de tornar
a informação auditiva o mais rica possível para seu filho,
para que ele vá organizando suas primeiras experiências. O bebê
no berço deve escutar os passos de sua mãe, sua voz dizendo que
vai pegá-lo nos braços, perceber seu cheiro, sentir o afeto pela
suavidade de sua voz, seu calor, a pressão do corpo materno contra o
seu; tudo isto configura uma experiência global na qual a criança
cega irá adquirindo percepção corporal e tomando conhecimento
das coisas ao seu redor.
Através de estudos ficou comprovado que a criança cega necessita
da estimulação auditiva na organização de suas percepções,
como se a audição atuasse monitorando as outras experiências
perceptivas, principalmente nas primeiras etapas de vida. Fica caracterizada
a importância da conscientização dos pais da necessidade
de conversar com o bebê (dizendo a ele o que está acontecendo nas
suas atividades da vida diária: alimentação, banho, passeio,
troca de fralda, pegar no colo, fazer carinho, etc.).
A percepção tátil nos cegos tem significado completamente
diferente. Suas imagens são formadas através de percepções
táteis e auditivas, enquanto as do vidente são formadas, predominantemente,
através de impressões visuais.
Se a audição e o tato oferecessem tantas possibilidades de conhecimento
do mundo como o sentido da visão, a criança cega não teria
tantas desvantagens em relação ao vidente. Por isso, faz-se necessária
a estimulação precoce para que não ocorram grandes defasagens
na realização de suas primeiras experiências - base para
seu desenvolvimento psiconeuromotor.
As crianças cegas devem ter a opor-tunidade de vivenciar experiências
totais de forma inteligente, ampla e generalizada que não somente compreendam
conhecimento verbal e tátil dos objetos, mas sua posição
no espaço e no tempo, suas relações com a criança
e com outros seres e objetos. Desta forma ela irá se organizando, conhecendo
e sentindo-se segura e confiante para se lançar em novas experiências.
Mobilidade e domínio de espaços desconhecidos
A maioria das pessoas cegas considera este o principal efeito da cegueira. Depender
do conhecimento prévio de um espaço ou de outra pessoa, em certas
situações, gera ansiedade e angústia. Na nossa experiência
podemos observar pessoas cegas que superaram estes sentimentos e apresentam
bom controle do espaço.
A mobilidade ou capacidade de movimento depende de dois fatores. Ambos são
essenciais para a mobilidade e estão intimamente relacionados:
a) orientação mental - que é a habilidade de uma pessoa
reconhecer o espaço a sua volta e as relações espaço-temporais
em relação a si mesma;
b) locomoção física - que é o movimento de um organismo
em deslocamento, conferindo significado a este mecanismo orgânico.
A criança cega que deseja dirigir-se a um determinado lugar deverá
formar um mapa mental em seu pensamento, enquanto se desloca para
seu objetivo. Sua memória motriz e seu sentido auditivo estarão
constantemente em atividade, procurando captar todos os sons que possam informá-la
a respeito das variações encontradas a sua volta e os perigos
que dela derivam. Assim mesmo, procurará interpretar os diferentes sinais
recolhidos no ambiente, que servem de pontos de referência para verificar
se seu deslocamento está correto. Terá sua atenção
voltada aos odores, mudanças de temperatura, correntes de ar, alterações
do piso, distância em relação ao tempo que leva para alcançar
seu objetivo e também aos diferentes ruídos durante o percurso.
O equilíbrio e o sentido cinestésico também se acham implicados.
O equilíbrio é sempre difícil quando não há
visão para lhe proporcionar informações sensoriais que
lhe permitam um feedback postural. A criança tem que encontrar este equilíbrio
em si mesma, desenvolvendo melhor coordenação e reflexos. O sentido
cinestésico, que nos facilita informações referentes à
configuração do movimento do corpo no espaço, deve ser
educado no cego a fim de ajustar movimentos e deslocamentos.
Os movimentos nos primeiros anos de vida têm importância fundamental.
A criança cega está restrita em seus movimentos muito precocemente.
As crianças de visão normal têm um desejo inato de colocar
em uso imediatamente os movimentos que vão adquirindo, sentem prazer
no aperfeiçoamento de suas habilidades motoras. Na criança cega
este desejo é inibido pela ausência do estímulo visual.
As formas e cores não lhe provocam qualquer interesse de aproximação,
além disso sente medo diante do vazio. Não tem domínio
do espaço a sua volta e não tem a menor idéia do que pode
encontrar. Se a criança cega não for educada precocemente, tende
a ser passiva. Este comportamento pode originar alterações musculares
(hipotonia), na coordenação e no equilíbrio estático
e dinâmico. A mielinização nervosa, que ocorre nas primeiras
etapas da vida, é responsável pela organização psicomotora
como um todo.
A visão é o suporte que permite a criança estabelecer sua
atividade motora e perceptiva. Na ausência da visão o espaço
será construído através de referências auditivas,
olfativas, gustativas, proprioceptivas e táteis. O sistema de referência
é completamente diferente e a estruturação do espaço
é constituída de forma singular e específica. A partir
de informações recolhidas dos diversos sentidos pode-se chegar
a uma representação mental deste espaço, que junto com
seu sentido de orientação (capacidade de situar-se em relação
aos objetos a sua volta), concentração e memória permitem
o deslocar-se com mais facilidade em um meio externo, interiorizado. As diferenças
individuais encontradas na mobilidade entre crianças cegas são
notáveis e já podem ser observadas nas primeiras etapas da vida.
Algumas apresentam grande facilidade e outras são incapazes de se orientar
e explorar espaços desconhecidos. Este fato está relacionado à
valorização precoce do potencial sensorial e do equilíbrio
emocional da criança.
A família deve ser orientada para a importância dos estímulos
auditivos, táteis e proprioceptivos desde o primeiro momento de vida
da criança. Além disso esta família deverá ser trabalhada,
de forma a encarar a deficiência de seu filho sem sentimentos de culpa,
superproteção ou rejeição. Estes sentimentos darão
origem a um desequilíbrio emocional, prejudicando o pleno desenvolvimento
de suas potencialidades.
A fisioterapia através da estimulação poderá propiciar
uma reorganização sensorial logo nas primeiras etapas da vida,
evitando atraso no desenvolvimento psicomotor e com isso prevenindo alterações
do equilíbrio estático e dinâmico.
Aspectos diferenciais
no desenvolvimento
da criança cega congênita
Desenvolvimento criança cega congênita x criança de visão
normal
os padrões de desenvolvimento da criança cega seguem os mesmos
da criança vidente. No entanto, como já foi visto, o desenvolvimento
é um processo dinâmico de interação com o meio, no
qual o amadurecimento das estruturas sensoriomotoras ocorre através de
contínua troca entre estímulos e respostas. Estando a criança
cega privada do sentido da visão este processo será mais lento
porque adaptações iniciais terão que ser elaboradas para
que siga normalmente no seu desenvolvimento psiconeuromotor.
Na evolução reflexa da criança cega há que se distinguir
dois tipos de reflexos (ver quadro 1):
s Reflexos primários - aqueles que aparecem ao nascimento.
s Reflexos secundários - os que aparecem após o nascimento.
De modo geral, os reflexos primários da criança cega não
apresentam alteração. A única exceção é
a reação de endireitamento do pescoço que pode vir a sofrer
prejuízos pela ausência da monitorização óptica.
Os proprioceptores responsáveis por este reflexo são a todo momento
reforçados pela informação visual. Na ausência desta
o aparato proprioceptivo sofre uma readaptação e passa a buscar
reforços em outras vias sensoriais, principalmente a labiríntica.
Quanto aos reflexos secundários todos estarão prejudicados. Não
aparecem espon-taneamente, portanto, precisam ser ensinados e trabalhados até
que se tornem automáticos. Aqui se incluem as reações de
endireitamento (labiríntica, corpo sobre o corpo, corpo sobre a cabeça),
as protetoras e as de equilíbrio.
Como já foi dito, o aparecimento e integração das reações
mais primitivas permitem o surgimento das reações mais complexas,
implicadas nos movimentos voluntários. Daí a necessidade da facilitação
à integração e automatização das primeiras,
para que as etapas do desenvolvimento sejam transpostas naturalmente.
Qualquer alteração no processo evolutivo pode trazer seqüelas
irreparáveis à independência e locomoção da
pessoa deficiente visual.
A criança cega não realiza as reações protetoras,
principalmente porque não enxerga o solo, por isso não tem porque
estender os braços para proteger-se da queda. Ela deve ser ensinada a
perceber a continuidade das superfícies através do tato, vendo
com as mãos.
As reações de endireitamento também são afetadas
em virtude da importância da visão na orientação
postural. Com a ausência da in-formação visual, os receptores
proprio-ceptivos, táteis e principalmente labirínticos terão
que ser acessados. Isto pode ser feito através da cinesioterapia. Nada
melhor do que o movimento para ajudar na consciência corporal necessária
a uma boa orientação postural.
Outro aspecto a ser levado em conta é a importância destas reações
nas aquisições motoras básicas, como o elevar a cabeça,
rolar, sentar etc. A criança cega por não poder receber os estímulos
visuais, quando deitada na posição prona, não percebe qualquer
diferença entre estar com a cabeça voltada para o colchão
ou elevá-la. Por isso, geralmente não gosta de ficar nesta posição,
sente desconforto e dificuldade para respirar. É preciso despertar seu
interesse através de outros estímulos, principalmente auditivos,
para que sinta prazer em elevar sua cabeça e, desta forma, interagir
com o ambiente. O controle da cabeça é primordial no processo
do desenvolvimento motor, ele é a base de um processo que ocorre de forma
crânio-caudal.
As reações de equilíbrio são contingentes às
de endireitamento e também devem ser educadas de forma progressiva. A
visão é fundamental para o equilíbrio pela íntima
relação entre as percepções visuais e vestibulares,
uma serve de reforço para a outra. Na ausência deste sentido as
informações vestibulares estabelecerão vínculos
mais estreitos principalmente com os receptores táteis e proprioceptivos.
Desenvolvimento espaço-temporal
Espaço
Pelo fato da criança cega não poder formar imagens visuais, adquire
a noção de espaço baseada em imagens mentais. Este processo
se inicia com o conhecimento de seu espaço corporal e o do corpo de sua
mãe. Começa pelo conhecimento das mãos, leva-as ao rosto
de sua mãe e sente prazerosamente a vibração do som quando
explora os lábios maternos. Para que a criança desenvolva estas
noções é preciso que haja um vínculo afetivo. Desta
forma ela vai aperfeiçoando suas habilidades sensoriais, motoras e sensitivas
que serão os instrumentos básicos à percepção
do espaço.
Através de jogos e brincadeiras a criança cega vai estabelecendo
seu esquema corporal. Aos cinco meses já é interessante a introdução
de alguns conceitos espaciais como: em baixo, em cima, e assim por diante. Logo
a criança descobrirá a funcionalidade da verbalização
de tais conceitos quando se empenha em alcançar um objeto ou alguém.
De acordo com trabalhos que vêm sendo realizados pela Organização
Nacional de Cegos Espanhóis - ONCE, tem-se observado em crianças
com quatorze meses conhecimento de direita e esquerda, e capacidade de buscar
objetos próximos em cada lado de seu corpo, quando indicada. Crianças
com dois anos, que seguiram o programa da ONCE, conheciam perfeitamente pés
e mãos, direitos e esquerdos. Este conhecimento é fruto de um
trabalho intenso, no qual através da repetição é
formado um hábito, desta forma a criança vai interiorizando. Um
novo conceito só é introduzido quando há a interiorização
do anterior.
A imagem do espaço só se desenvolve corretamente quando a criança
cega recebe imagens e as projeta de forma positiva e gratificante.
Tempo
A partir do segundo ano de vida a criança cega é capaz de integrar
o tempo de uma forma mais completa a partir das esperas. Algumas
delas são pacientes porque já prevêem o que acontecerá.
Outras se irritam pela impossibilidade de expressar o que desejam. Necessitam
de compreensão e pontos de referência claros e repetidos, para
que possam se antecipar aos acontecimentos e situações do cotidiano.
Quando as atividades familiares estão desorganizadas ou alteradas por
angústia e depressão, a criança cega não pode prever
e, em conseqüência disso, apresenta uma sensação de
medo contínuo do inesperado.
Um aspecto importante a ser levado em conta é o de prover todos os sinais
e pontos de referência que ajudarão a criança cega a se
antecipar a um fato ou atividade, desta forma poderá gradativamente atingir
sua autonomia.
A criança cega estabelece progressiva-mente o sentido de tempo por meio
dos ritmos vivenciados: fome e saciedade, sono e vigília, silêncio
e ambiente sonoro, luz e escuridão (se são percebidas).
Cada criança cega tem seu próprio ritmo e sua capacidade pessoal
de espera. A mãe, assim mesmo, adapta as possibilidades de seu filho
aos ritmos de carência, satisfação, gratificação
e frustração. Nos primeiros meses o bebê não pode
esperar. Quando tem uma necessidade deve ser atendido no momento em que ela
se apresenta. Seu ritmo deve ser acompanhado para que perceba que existe uma
sincronia entre suas demandas e as respostas que obtém. A partir dos
seis meses, a mãe pode fazê-lo esperar um pouco quando este a solicita.
Porém a crianca deve ouvir sua voz numa entonação calma
e seus passos aproximando-se do berço. Até doze meses as frustrações
associadas às gratificações terão um valor especial
no estabelecimento do tempo.
Bases anátomo-fisiológicas para a assistência fisioterápica
à criança cega
A evolução motora do neonato até a idade adulta depende
da maturação do sistema nervoso central, sendo determinada por
padrões genéticos e estímulos ambientais. Os estímulos
apreendidos pelos órgãos dos sentidos são coordenados e
integrados pelo sistema nervoso central, através de reações
complexas que decorrem automaticamente. Apesar de ocorrerem variações
conforme a idade da criança, estas reações ocorrem, contudo,
desde o nascimento em sucessão determinada. Caracterizam-se pelo desenvolvimento
dos mecanismos reflexos da atitude ou postura e da manutenção
desta, que permitem ao homem erguer-se contra a força da gravidade e
conservar seu equilíbrio.
A atividade motora possibilita ao homem o confronto com o meio-ambiente. Para
a criança, a melhor utilização das capacidades motoras
implica na aquisição da sua independência e capacidade de
adaptação.
A motricidade se realiza, num primeiro plano, pela regulação do
tônus, ou seja, inibição de centros cerebrais profundos
e estimulação de centros mais integrados mediante regulações
e contra-regulações reciprocamente graduadas. Cada nova etapa
do desenvolvimento se dá em função de uma aquisição
feita anteriormente. O conjunto ordenado dos centros cerebrais, a psique e a
capacidade de perceber e reagir torna possível a interação
da criança com o meio. Esta interação ocorre através
das vias aferentes, que levam os estímulos aos centros superiores do
Sistema Nervoso Central, onde são processadas, e as vias eferentes que
conduzem a resposta ao órgão efetor.
Quando ocorre lesão de um sistema que ainda não está plenamente
desenvolvido, a possibilidade de adaptação é maior, ao
contrário de um sistema já amadurecido; isto ocorre por vias que
ainda estão abertas. É o que chamamos de plasticidade do Sistema
Nervoso Central, que é máxima nos primeiros meses de vida. Daí
a importância de uma atuação terapêutica precoce.
Considerações anátomo-fisiológicas
Vias Aferentes
As vias aferentes são destinadas a transmitir os estímulos captados
na periferia para o córtex cerebral e/ou cerebelar. Cada uma destas vias
é composta de: receptor, trajeto periférico, trajeto central e
a área de projeção cortical. Tais estruturas serão
descritas a seguir.
O receptor é sempre uma terminação nervosa sensível
ao estímulo que caracteriza a via. Existe um receptor específico
para cada uma das modalidades de sensibilidade. A conexão deste receptor,
por meio de fibras específicas, com determinada área do córtex
cerebral permite o reconhecimento das diferentes formas de sensibilidade, exceto
alguns receptores cutâneos relacionados a mais de um tipo de modalidade
sensorial.
O trajeto periférico compreende um nervo espinhal ou craniano e um gânglio.
O trajeto central leva os impulsos pela medula até estruturas superiores
do Sistema Nervoso Central, através de grupamentos de fibras (feixes)
formando tractos, fascículos e lemniscos de acordo com suas funções.
A área de projeção cortical está no córtex
cerebral ou cerebelar. Os estímulos referentes a sensibilidade consciente
projetam-se no córtex cerebral e os referentes a sensibilidade inconsciente,
no córtex cerebelar.
Consideramos importante o conhecimento da localização e tipos
de receptores encontrados no corpo, já que serão objeto da estimulação
no trabalho com o bebê cego.
Segundo Sherrington, os receptores são classificados em:
Exteroceptores - localizam-se na superfície externa do corpo e são
ativados por estímulos térmicos, luminosos, auditivos e de pressão.
Proprioceptores - localizam-se profundamente em músculos, tendões,
fáscias, ligamentos e cápsulas articulares. Os impulsos proprioceptivos
originados nestes receptores podem ser conscientes ou inconscientes. Os primeiros
atingem o córtex, permitindo a percepção da posição
do corpo e suas partes, bem como a atividade muscular e o movimento das articulações.
São responsáveis pelo sentido de posição e movimento
(cinestesia). Os impulsos inconscientes não despertam qualquer sensação,
sendo utilizados, para a regulação reflexa da atividade muscular
através do reflexo miotático, ou da atividade do cerebelo. A propriocepção
inconsciente é fornecida pelo fuso muscular e órgão tendionoso
de golgi, a consciente por terminações nervosas complexas, geralmente
desprovidas de cápsulas, existentes nos tendões, ligamentos e
cápsulas articulares.
Interoceptores - são estruturas relacionadas à sensibilidade e
regulação reflexa da atividade visceral. Estão localizadas
nas vísceras.
Vias Eferentes
As vias eferentes põem em comunicação os centros supra-segmentares
do sistema nervoso com os órgãos efetores. Tradicionalmente as
vias eferentes somáticas estão divididas em dois grupos, que constituem
o sistema piramidal e o sistema extrapiramidal. Estas vias são responsáveis
pela motricidade.
O sistema piramidal origina-se no córtex cerebral e seu trajeto até
o neurônio motor é direto através das fibras córtico-espinhais
ou córtico-nucleares. Já o extrapiramidal origina-se no córtex
cerebral e no córtex cerebelar e tem trajeto com vários relés
intermediários.
Do ponto de vista filogenético o sistema piramidal é mais recente,
sendo mais desenvolvido no homem. A mielinização do sistema piramidal
ocorre depois do sistema extrapiramidal. Admite-se que a atividade motora da
criança no primeiro ano de vida depende basicamente do sistema extrapiramidal.
O sistema piramidal é responsável pelos movimentos voluntários,
enquanto o extrapiramidal tem por função básica a realização
de movimentos automáticos, regulação do tônus e da
postura, assim como, através do cerebelo, a coordenação
dos movimentos. O sistema extrapiramidal promove o suporte postural aos movimentos
voluntários.
Os movimentos voluntários são aqueles liberados e planejados decorrentes
de um ato de vontade. Já os movimentos automáticos compreendem
os automatismos primários e os automatismos secundários. Os primeiros
são movimentos inatos que não dependem de aprendizagem, tais como
o choro, a sucção e a deglutição. Os segundos são
movimentos automáticos que só se estabelecem após um período
de aprendizagem como a marcha. Admite-se que na fase de aprendizagem estes movimentos
dependem do sistema piramidal, passando ao domínio do sistema extrapiramidal
quando se tornam automáticos.
As terminações nervosas motoras somáticas se assemelham
às sinapses entre os neurônios e são chamadas junções
neuromusculares. A chegada do impulso ao músculo se faz através
da placa motora, ocorrendo desta forma a contração muscular.
Tônus Muscular
É a qualidade do músculo de resistir ao movimento. Os franceses
chamam de extensibilité, relacionando-a à lenta distensão
enquanto se movimenta o músculo através de uma faixa de movimentos,
ou pode ser descrita como fenômeno de recuo. Quando o músculo é
distendido passivamente e liberado, salta de volta para sua posição
original. Quando há distensão e não há reação,
dando lugar a flacidez, chama-se hipotonia. Por outro lado, quando há
uma resistência constante a distensão, associada com um atraso
tipo cano de chumbo no relaxamento, tem-se a rigidez. Além
disso, a distensão com reação muito rápida e recuo
muito intenso denomina-se espasticidade.1
A regulação do tônus muscular através do corpo para
a manutenção da postura e realização de movimentos
é função do sistema proprioceptivo. Os reflexos posturais
têm um papel dominante na regulação do grau e na distribuição
do tônus muscular. A maior parte desses reflexos são provocados
pelo estímulo de órgãos sensoriais nos músculos
e articulações ou pelos labirintos. São exceções
os reflexos de endireitamento provocados por estimulação tátil
da superfície corporal e reflexos de endireitamento ópticos. O
tônus muscular depende de um arco reflexo proprioceptivo intacto cuja
fonte é o músculo. Os órgãos proprioceptivos são
estimulados pelos movimentos do corpo (Fulton, 1951).
Assistência fisioterápica
à criança cega congênita
A assistência fisioterápica à criança cega se justifica,
por ser o fisioterapeuta portador de conhecimentos técnicos e científicos
sobre o desenvolvimento psicomotor, assim como das implicações
que a ausência da visão pode acarretar a este processo. Este profissional
está apto a diagnosticar e intervir de forma adequada, com intuito de
prevenir a instalação de alterações motoras na criança
deficiente visual.
A melhor ajuda que a fisioterapia pode prestar é através da estimulação
motora. A criança deve aprender a se movimentar, a conhecer seu corpo
e ter prazer em se deslocar para descobrir o mundo que a cerca e dominar o espaço.
A passividade imprimida pela ausência da visão pode implicar em
alterações nas seguintes áreas: tônus muscular; postura;
coordenação motora; psíquica; equilíbrio; orientação
espacial; cinestésica e social.
Nosso objetivo principal é desenvolver habilidades sensoriais, para que
a privação do sentido da visão não inviabilize o
processo de interação com o meio, responsável pelo amadurecimento
psicomotor.
O recurso mais apropriado é a cinesioterapia através de exercícios
passivos, ativo-assistidos e ativo-livres, de acordo com o propósito
em questão. A cinesioterapia, ou seja, terapêutica pelo movimento
pode ser realizada através da estimulação auditiva, olfativa,
gustativa, tátil, proprioceptiva e cinestésica, visando desenvolver
a consciência corporal, coordenação motora, equilíbrio,
correção postural, marcha e orientação no espaço.
Os exercícios têm como objetivo estimular as vias sensoriais remanescentes
para que, através destas, a criança consiga se integrar plenamente
com o meio, alcançar independência e felicidade. Pelos movimentos
ocorrerá a estimulação dos receptores de tato, propriocepção,
pressão, temperatura, etc. localizados nas diversas regiões do
corpo.
O fisioterapeuta, inicialmente, fará uma avaliação dos
padrões motores, da postura e atividade reflexa, objetivando uma orientação
e manejo mais adequado no que diz respeito a estes aspectos.
A motricidade não pode ser vista isoladamente, mas como o desejo
para ação, favorecendo o conhecimento e o domínio
do próprio corpo, sempre procurando proporcionar a participação
afetiva da criança. Um dos aspectos mais ricos que a criança possui
para aprender suas tarefas evolutivas é o brinquedo, ou seja, o jogo.
Este também segue como os outros itens, um desenvolvimento evolutivo
que vai desde a experiência de natureza simples feita pelo bebê
até atividades mais complexas realizadas pela criança mais velha.
A atividade lúdica na vida da criança ocupa, em importância,
o mesmo lugar do trabalho na vida de um adulto. Este aspecto constitui
o eixo principal da nossa atividade técnica em função de
que os estímulos serão oferecidos através de brinquedos
e atividades lúdicas.
Estimular não é bombardear a criança para que
ela faça alguma coisa. Estimular é oferecer situações,
pessoas, objetos etc., que tenham um significado para a criança, despertando
desta forma seu desejo para agir sobre os estímulos que lhe foram oferecidos.
Metas básicas
a assistência cinesioterápica à criança deficiente
visual nos primeiros dois anos de vida segue metas prioritárias a serem
alcançadas em cada etapa, em virtude dos aspectos diferenciais do desenvolvimento
motor da criança cega. Por uma questão didática tentaremos
dividi-las em semestres, conforme segue:
Primeiro
semestre Reações protetoras para baixo; Reação de
endireitamento do pescoço; Reação de endireitamento labiríntica;
Reação de equilíbrio em prono; Elevação e
controle da cabeça: - promover atividades lúdicas em que a criança
assuma a postura em prono, com o apoio de membros superiores; Consciência
das mãos: - propiciar atividades que despertem o interesse da criança
para esta parte do corpo, para que sejam trazidas à linha média;
- desenvolver as habilidades táteis, assim como a coordenação
auditiva-manual. Desenvolver habilidades auditivas: - reconhecimento do ambiente
doméstico através de sons e odores característicos de cada
parte da casa; Desenvolver a consciência corporal: -atividades que promovam
o reconhecimento dos seus contornos físicos através de estímulos
táteis, proprioceptivos e auditivos.
Segundo semestre Reações protetora para frente, para os lados
e para trás; e Reações de equilíbrio em supino e
sentado. Nesta fase é de grande importância que a criança
cega seja estimulada a realizar pequenos deslocamentos. Geralmente ela se sente
mais segura em deslocar-se para trás, é uma forma de proteger
sua face. Estes deslocamentos podem ser feitos na posição supino
pressionando seus calcanhares sobre o solo e elevando o quadril (ponte), na
posição sentada, ou na posição prono arrastando-se
para trás. Seja qual for a forma de deslocamento, ele deve ser reforçado.
Os estímulos sonoros devem ser usados como motivação. Ex.:
Atividades com bola que propiciem a noção de distância.
Brincadeiras em que a criança empurra a bola próxima a um canto
da parede. A bola bate e volta para ela (pode ser usado um guizo dentro da bola
para facilitar a percepção do caminho que ela percorre).
Terceiro semestre Reação de equilíbrio em 4 apoios; Desenvolver
o senso de orientação e mobilidade: - atividades lúdicas
que propiciem deslocamentos com autonomia no espaço. Para isso, podem
ser usados brinquedos com rodas que lhe proporcionem segurança; Desenvolvimento
das habilidades táteis: - suas habilidades táteis devem ser trabalhadas
para que possa explorar e efetuar imagens mentais das pessoas e objetos a sua
volta. Isto pode ser realizado através de jogos de imitação
no qual a criança é solicitada a mostrar com as mãos a
forma de objetos simples e familiares; Suas habilidades auditivas podem ser
desenvolvidas através de jogos de adivinhação no quais
reconhecerão sons familiares e alcançarão a fonte sonora.
Com isso estará sendo desenvolvida sua capacidade de orientação.
Quarto semestre Reação de equilíbrio de pé. A criança
cega nesta fase deve ser trabalhada para cada vez mais desenvolver autonomia
na locomoção. É interessante propiciar atividades que envolvam
um pequeno bastão, com objetivo de integrar este elemento que será
de fundamental importância para o resto da vida na sua orientação
e mobilidade, a bengala. Deve-se atentar para a postura da criança cega,
uma vez que a incapacidade de imitação pode levá-la a assumir
posturas anômalas.
Conclusão
Concluímos que as vivências diárias, por terem uma ação
muito abrangente, poderão se transformar em experiências integradoras
do próprio ser. Quando a criança é tratada como um todo
indivísivel atinge a estabilidade emocional e, naturalmente, logrará
alcançar melhoras nos níveis sensorial, motor e psíquico.
Este trabalho não visa encontrar respostas definitivas ou respostas incontestáveis,
ele se propõe a ser caminho e não lugar.
A amizade é uma das coisas mais gratificantes deste mundo. Alguns amigos
foram de extrema importância na realização deste trabalho,
com destaque para Margarida Aguiar Monteiro.
Maria Margarete Andrade Figueira, professora do Instituto Benjamin Constant. Adaptação da monografia apresentada para Graduação no Curso de Fisioterapia da Faculdade de Ciências Sociais e da Saúde do Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação - IBMR.
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Fonte: Extraído da revista Benjamin Constant número 05 - dezembro de 1996 - publicação técnico científica do Centro de Pesquisa, Documentação e Informação do Instituto Benjamin Constant (IBCENTRO/MEC).