| Os recursos didáticos na educação especial |
Resumo
Os materiais didáticos são de fundamental importância para
a educação de deficientes visuais. Este texto pretende definir,
classificar e ilustrar alguns destes materiais, além de apresentar recursos
disponíveis a partir da utilização de equipamentos de informática.
Abstract
The didatic materials are of vital importance in the educational process, in
the case of visually handicapped people. This text intends to describe, classify
and give examples of some of these resources, and also list some of the ones
provided by technological developments.
Talvez
em nenhuma outra forma de educação os recursos didáticos
assumam tanta importância como na educação especial de pessoas
deficientes visuais, levando-se em conta que:
s um dos problemas básicos do deficiente visual, em especial o cego,
é a dificuldade de contato com o ambiente físico;
s a carência de material adequado pode conduzir a aprendizagem da criança
deficiente visual a um mero verbalismo, desvinculado da realidade;
s a formação de conceitos depende do íntimo contato da
criança com as coisas do mundo;
s tal como a criança de visão normal, a deficiente visual necessita
de motivação para a aprendizagem;
s alguns recursos podem suprir lacunas na aquisição de informações
pela criança deficiente visual;
s o manuseio de diferentes materiais possibilita o treinamento da percepção
tátil, facilitando a discriminação de detalhes e suscitando
a realização de movimentos delicados com os dedos.
Definição
Recursos didáticos são todos os recursos físicos, utilizados
com maior ou menor freqüência em todas as disciplinas, áreas
de estudo ou atividades, sejam quais forem as técnicas ou métodos
empregados, visando auxiliar o educando a realizar sua aprendizagem mais eficientemente,
constituindo-se num meio para facilitar, incentivar ou possibilitar o processo
ensino-aprendizagem. De um modo genérico, os recursos didáticos
podem ser classificados como:
Naturais: elementos de existência real na natureza, como água,
pedra, animais.
Pedagógicos: quadro, flanelógrafo, cartaz, gravura, álbum
seriado, slide, maqueta.
Tecnológicos: rádio, toca-discos, gravador, televisão,
vídeo cassete, computador, ensino programado, laboratório de línguas.
Culturais: biblioteca pública, museu, exposições.
O bom aproveitamento dos recursos didáticos está condicionado
aos seguintes fatores:
s capacidade do aluno;
s experiência do educando;
s técnicas de emprego;
s oportunidade de ser apresentado;
s uso limitado, para não resultar em desinteresse.
Seleção, adaptação e confecção
Na educação especial de deficientes visuais, os recursos didáticos
podem ser obtidos por uma das três seguintes formas:
Seleção
Dentre os recursos utilizados pelos alunos de visão normal, muitos podem
ser aproveitados para os alunos cegos tais como se apresentam. É o caso
dos sólidos geométricos, de alguns jogos e outros.
Adaptação
Há materiais que, mediante certas alterações, prestam-se
para o ensino de alunos cegos e de visão subnormal. Neste caso estão
os instrumentos de medir, como o metro, a balança, os mapas de encaixe,
os jogos e outros.
Confecção
A elaboração de materiais simples, tanto quanto possível,
deve ser feita com a participação do próprio aluno. É
importante ressaltar que materiais de baixo custo ou de fácil obtenção
podem ser freqüentemente empregados, como: palitos de fósforos,
contas, chapinhas, barbantes, cartolinas, botões e outros.
Com relação ao uso, os recursos devem ser:
Fartos - para atender a vários alunos simultaneamente;
Variados - para despertar sempre o interesse da criança, possibilitando
diversidade de experiências;
Significativos - para atender aspectos da percepção tátil
(significativo para o tato) e/ou da percepção visual, no caso
de alunos de visão subnormal.
Materiais básicos
Para alcançar desempenho eficiente, o aluno deficiente visual, especialmente
o aluno cego, precisa dominar alguns materiais básicos, indispensáveis
no processo ensino-aprendizagem. Entre esses materiais, destacam-se: reglete
e punção, sorobã, textos transcritos em Braille e gravador
cassete.
Na medida do possível, o educando deverá usar máquina de
datilografia Braille, cujo rendimento, em termos de rapidez, pode mesmo ultrapassar
o da escrita cursiva dos videntes.
A máquina de datilografia comum pode ser utilizada pelo aluno deficiente
visual, a partir da quarta série, na apresentação de pequenos
trabalhos escolares. Constitui-se num valioso recurso de comunicação
nas fases posteriores da aprendizagem e tem inúmeras aplicações
na vida prática e no desempenho de muitas profissões.
Para alunos de visão subnormal, na maioria dos casos, os recursos didáticos
mais usados são:
s cadernos com margens e linhas fortemente marcadas e espaçadas;
s lápis com grafite de tonalidade forte;
s caneta hidrocor preta;
s impressões ampliadas;
s materiais com cores fortes e contrastantes.
Critérios
Na seleção, adaptação ou elaboração
de recursos didáticos para alunos deficientes visuais, o professor deverá
levar em conta alguns critérios para alcançar a desejada eficiência
na utilização dos mesmos, tanto para crianças cegas como
para as crianças de visão subnormal.
Tamanho: os materiais devem ser confeccionados ou selecionados em tamanho adequado
às condições dos alunos. Materiais excessivamente pequenos
não ressaltam detalhes de suas partes componentes ou perdem-se com facilidade.
O exagero no tamanho pode prejudicar a apreensão da totalidade (visão
global).
Significação Tátil: o material precisa possuir um relevo
perceptível e, tanto quanto possível, constituir-se de diferentes
texturas para melhor destacar as partes componentes. Contrastes do tipo: liso/áspero,
fino/espesso, permitem distinções adequadas.
Aceitação: o material não deve provocar rejeição
ao manuseio, fato que ocorre com os que ferem ou irritam a pele, provocando
reações de desagrado.
Estimulação Visual: o material deve ter cores fortes e contrastantes
para melhor estimular a visão funcional do aluno deficiente visual.
Fidelidade: o material deve ter sua representação tão exata
quanto possível do modelo original.
Facilidade de Manuseio: os materiais devem ser simples e de manuseio fácil,
proporcionando ao aluno uma prática utilização.
Resistência: os recursos didáticos devem ser confeccionados com
materiais que não se estraguem com facilidade, considerando o freqüente
manuseio pelos alunos.
Segurança: os materiais não devem oferecer perigo para os educandos.
Recursos didáticos específicos
Modelos
A dificuldade de contato com o ambiente, por parte da criança deficiente
visual, impõe a utilização freqüente de modelos com
os quais podem ser razoavelmente superados problemas de: tamanho dos objetos
originais, distância em que se encontram e impossibilidade de contato.
A melhor maneira de se dar ao aluno deficiente visual a noção
do que seja uma montanha, por exemplo, é mostrar-lhe um modelo deste
acidente geográfico. Ainda que se considere a possibilidade de a criança
subir a elevação, terá ela apenas a idéia do caminho
percorrido.
Os modelos devem ser criteriosamente escolhidos e, sempre que possível,
sua apresentação ao aluno ser acompanhada de explicações
verbais objetivas. Objetos muito pequenos podem ser ampliados, para que se tornem
perceptíveis detalhes importantes. Objetos situados a grandes distâncias,
inacessíveis portanto, precisam ser apresentados sob forma de modelos.
O formato de uma nuvem, a forma do sol, da lua, só podem ser apreendidos
pelos alunos através de modelos miniaturizados.
Mapas
Os mapas políticos, hidrográficos e outros, podem ser representados
em relevo ou, no caso do primeiro, por justaposição das partes
(encaixe). Mapas em relevo podem ser confeccionados com linha, barbante, cola,
cartolina e outros materiais de diferentes texturas. A riqueza de detalhes num
mapa pode dificultar a percepção de detalhes significativos.
Livro Didático
O emprego de desenhos, gráficos, cores nos livros modernos vem dificultando
de forma crescente sua transcrição para o Sistema Braille. Este
fato impõe a adoção de uma das seguintes soluções:
s adaptação do livro para transcrição em Braille;
s elaboração de livros especiais para cegos.
A primeira solução pode acarretar perda de fidelidade quanto ao
original, daí a necessidade de tais adaptações serem feitas
por pessoa realmente especializada na educação de deficientes
visuais. A segunda, embora atenda às peculiaridades do aluno cego, é
onerosa e lenta na elaboração, decorrendo, assim, dificuldades
em sua aplicação quando inexistirem recursos materiais indispensáveis.
Livro Falado
É o livro gravado em fitas cassete. De ampla utilização
no Brasil, constitui eficiente recurso como livro didático no segundo
grau e no ensino superior. A utilização do livro falado, no primeiro
grau, deve limitar-se tanto quanto possível, à literatura ou aos
didáticos de leitura complementar.
Avanços tecnológicos
O grande avanço tecnológico verificado nos últimos anos
vem proporcionando, também à educação especial,
recursos valiosos para o processo ensino-aprendizagem, inclusive com a utilização
de equipamentos de informática. Entre esses recursos podem ser destacados:
Sistema de Leitura Ampliada
Circuito Fechado de Televisão (CCTV)
Apresenta-se monocromático ou colorido, podendo ampliar até 60
vezes o tamanho de um caractere e funciona como periférico, acoplado
a um microcomputador.
Programas (Softwares)
Providos de recursos para ampliação de caracteres, permitindo
sua leitura em monitores, bem como sua impressão.
Thermoform
Duplicador de materiais, empregando calor e vácuo, para produzir relevo
em película de PVC.
Braille Falado
Minicomputador, pesando 450 g e dispondo de 7 teclas através das quais
o aparelho pode ser operado, para edição de textos a serem impressos
no sistema comum ou em Braille. O Braille Falado, conectado a um microcomputador,
pode ser utilizado como sintetizador de voz, transferir ou receber arquivos.
Funciona ainda como agenda eletrônica, calculadora científica e
cronômetro.
Microcomputador
Equipamento que amplia recursos na área da educação especial,
na vida prática e em atividades profissionais dos deficientes da visão.
Os computadores existentes no mercado, providos de programas específicos
e de diferentes periféricos, podem ser operados normalmente pelas pessoas
cegas. Entre os periféricos, podem ser destacados:
Sintetizadores de Voz
Conectados a um computador, permitem a leitura de informações
exibidas em um monitor. Dentre as diferentes modalidades produzidas em outros
países, inclusive com voz sintetizada na língua portuguesa, destaca-se
o DOSVOX, desenvolvido pelo Núcleo de Computação Eletrônica
da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Terminal Braille (Display Braille)
Representa, em uma ou duas linhas, caracteres Braille correspondentes às
informações exibidas em um monitor. Os caracteres Braille são
produzidos por pinos que se movimentam verticalmente em celas, dispostas numa
placa, geralmente metálica.
Impressora Braille
Existem hoje, no mercado mundial, diferentes tipos de impressoras Braille, seja
para uso individual (pequeno porte) ou para produção em larga
escala (médio e grande porte). As velocidades de produção
são muito variadas. Essas impressoras, geralmente, podem imprimir Braille
interpontado ou não em 6 ou 8 pontos, bem como produzir desenhos. Algumas
impressoras Braille podem utilizar folha solta, mas a maioria funciona com formulário
contínuo.
Scanner de Mesa
A transferência de textos impressos para microcomputadores (via scanner)
vem alcançando ampla utilização entre estudantes e profissionais
deficientes da visão. O texto digitalizado pode ser lido através
de um sintetizador de voz de um terminal Braille, impresso em Braille ou no
sistema comum ampliado. O scanner pode ser operado com facilidade por um deficiente
visual.
Sistema Operacional DOSVOX
O Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ (NCE) vem
se dedicando à implementação de um sistema destinado a
atender aos deficientes visuais que desejem utilizar computadores para desempenharem
diferentes tarefas. Neste sentido, foram desenvolvidas as seguintes ferramentas
computacionais:
sintetizador de voz portátil que possibilita a produção
de fala, ainda que o computador não possua placa de som;
sistema operacional complementar ao DOS, destinado a produzir saída sonora
com fala em língua portuguesa;
editor de textos;
caderno de telefones, agenda de compromissos, calculadora, relógio, jogos
etc.;
utilitários para acesso à INTERNET, para preenchimento de cheques
e outros.
O Sistema DOSVOX alcançou ampla aceitação em todo o Brasil,
registrando-se várias centenas de usuários, muitos deles, estudantes
de diferentes níveis de escolaridade.
O Instituto Benjamin Constant mantém cursos do Sistema Operacional DOSVOX,
e possui um Laboratório de Pesquisa em Computação para
Deficientes Visuais em cooperação com a Universidade Federal do
Rio de Janeiro.
Jonir Bechara Cerqueira e Elise de Melo Borba Ferreira são professores do Instituto Benjamin Constant.
Fonte: Extraído da revista Benjamin Constant número 05 - dezembro de 1996 - publicação técnico científica do Centro de Pesquisa, Documentação e Informação do Instituto Benjamin Constant (IBCENTRO/MEC).