| Alfabetização: uma reflexão necessária |
Resumo
A partir do construtivismo abordado nas pesquisas de Jean Piaget, surge a proposta
de uma nova visão na construção do período de alfabetização
da criança cega ou de visão subnormal.
Abstract
From the constructivism in Jean Piagets researches, it arises the proposal
of a new perspective in the alphabethism periods construction, in the
case of blind and visually handicapped children.
A
educação especial caracteriza-se, sempre, por oferecer um atendimento
um tanto padronizado aos indivíduos que reclamavam atendimento a necessidades
educativas especiais. Considerando-os todos como pessoas capazes de se desenvolverem
através do concurso de teorias da aprendizagem comportamentalistas, fortaleceram-se
os estigmas que rotulam cada deficiência.
Sem sombra de dúvida, o período de alfabetização
é aquele em que afloram os mais graves problemas verificados no correr
do desenvolvimento mental da criança cega. Nessa fase, acionam-se esquemas
interpretativos de fundamental importância; a ocorrência de falhas
na construção das estruturas cognitivas durante as etapas evolutivas
desse desenvolvimento trará ao alfabetizando graves dificuldades e irremediáveis
fracassos.
Sabe-se, todavia, que o processo de aprendizagem de uma criança portadora
de deficiência visual requer procedimento e recursos especializados. Para
que seu crescimento global se efetive, verdadeiramente, faz-se necessário
que lhe sejam oferecidas muitas oportunidades de experiências, e inúmeras
habilidades devem ser trabalhadas. Isto significa que uma criança cega
deve ser educada sob a orientação de vários meios e exercícios
de condicionamento. Este enfoque, antigo e superado, deve ser mudado.
A criança cega precisa ser percebida como um ser inteiro, dona dos seus
pensamentos, e construtora, ainda que em condições peculiares,
do seu próprio conhecimento. Vê-la como um produto de treinamentos
milagrosos é uma distorção que exige uma revisão
urgente. Em meio a diversas propostas educacionais, surge o construtivismo.
Ao tentar compreendê-lo, buscam-se novos rumos para que se ampliem as
probabilidades de sucesso na alfabetização de crianças
cegas.
A importância do aprofundamento dessa procura liga-se à necessidade
de inserir a educação de pessoas portadoras de deficiência
visual a discussões educacionais mais amplas. A educação
em si, bem sabemos, não é especial. Especiais, pode-se
afirmar, são os procedimentos e recursos didático-pedagógicos.
O período de alfabetização suscita muito cuidado e impõe
esmerado preparo aos professores. As dificuldades e os freqüentes fracassos
dos educandos nessa fase escolar exigem uma mudança de atitude, e a tentativa
na procura de outros caminhos.
A escola precisa dinamizar sua atuação, os educadores precisam
acreditar no seu ofício, a criança precisa ser levada a descobrir
o seu verdadeiro papel no processo ensino-aprendizagem. A educação,
como elemento transformador, precisa provocar a participação e
a interação entre escola, educadores e educandos.
Assim, a validade dessa discussão prende-se ao fato de que é necessário
compreender o processo de aprendizagem de uma criança cega: apreendendo
passo a passo suas descobertas, promovendo seu desenvolvimento como um indivíduo
capaz de crescer e realizar-se a despeito da deficiência que carrega.
Novas concepções aparecem para que os alfabetizadores possam refletir.
São princípios a serem analisados e não soluções
apontadas, modelos experimentados ou aprovados. No entanto, é preciso
levantar tais questões e procurar uma nova pedagogia que atenda os anseios
do homem desse final de milênio. A educação espelha a ideologia
de seu tempo, e caminha para o século XXI. Não é mais possível
deixar uma criança cega à margem do seu próprio crescimento,
fora do momento histórico em que vive. Ela tem de tomar consciência
de si mesma, de suas reais possibilidades. Como qualquer outra criança,
deverá perceber que constrói seu conhecimento, interpreta e reinterpreta
a realidade que a rodeia, e cria e recria as coisas do seu mundo infantil.
O construtivismo vem como um novo caminho, uma fonte de análise para
que os educadores repensem profundamente as práticas pedagógicas.
É imprescindível examinar essas questões. Tendo em vista
os grandes problemas verificados durante o processo de alfabetização
de crianças cegas, é importante que os alfabetizadores revejam
a relação com seus alunos, reflitam sobre suas metas de ensino,
despertem para objetivos claros e bem definidos, a fim de que a ação
educativa esteja, realmente, em consonância com as necessidades do educando.
É um momento em que alfabetizandos e alfabetizadores se debatem em meio
a múltiplas dúvidas e enormes tropeços. É um período
de desafios e de descobertas imprevisíveis, tanto nos aspectos negativos
quanto nos positivos. Por tais razões, é preciso que os professores
que desejam dedicar-se a esse campo educacional tenham o preparo que se exige,
para que os resultados obtidos sejam, na realidade, os mais proveitosos.
A esses profissionais fica a tarefa de estudarem os três eixos principais
onde seus trabalhos devem estar apoiados, conforme demonstrados no quadro abaixo:
Eixo Linguístico Quem alfabetiza transmite os fundamentos básicos
que estruturam uma determinada língua. Por isso, alguns princípios
lingüísticos precisam ser trabalhados com critério e competência.
Eixo Social Entende-se que a língua e a linguagem são dois instrumentos
sociais. O homem fala e se comunica porque pertence a um determinado grupo social
no qual se desenvolvem valores culturais específicos. A escrita é
um objetivo socialmente estabelecido e a análise a respeito do assunto
deve merecer destaque.
Eixo Construtivista O construtivismo deverá ser estudado, como não
poderia deixar de ser, a partir das pesquisas de Jean Piaget. A aquisição
do conhecimento, ao correr das etapas evolutivas da criança, deverá
constituir-se no alicerce dessa nova postura pedagógica. Os aspectos
cognitivos da criança cega precisarão ser vistos e cotejados como
os da criança vidente. Fazendo-se o confronto entre o processo do desenvolvimento
mental de crianças videntes e de crianças cegas, pode-se estabelecer
um paralelo de como se processa a aprendizagem dos dois grupos. Finalmente,
é de suma importância verificar a aplicação do construtivismo
e fazer o estudo comparativo entre as possibilidades, e, principalmente, o volume
de oportunidades de aprendizagem entre crianças videntes e cegas.
À luz da lingüística, da sociologia, da epistemologia e da
psicologia genética deve-se buscar a explicação do fenômeno
alfabetização, ampliando sua abordagem. Mesclando
todas essas correntes do conhecimento humano, aos educadores é oferecida
uma gama variada de saberes e pensamentos. Aquilata-se assim, a complexidade
que envolve a educação especial.
Educar uma criança cega não é uma missão simples:
é uma opção profissional imposta por uma grande vocação
e deve estar baseada na consciência da responsabilidade de alguém
que precisa investir no seu próprio trabalho, para que essa escola se
transforme num desempenho digno que infunda respeito e credibilidade.
É preciso refletir: o que é alfabetizar?
Por que essa etapa, dentro do processo educacional, externaliza as mais profundas
preocupações de educadores, psicólogos, cientistas sociais?
Como envolver crianças, jovens e adultos nessa conquista? Tais perguntas
poderiam juntar-se a outras mais, que no entanto, convergiriam para um único
ponto: o indivíduo.
Fala-se de cidadania, justiça social, de liberdade e de democracia. Inscrevem-se
nestas palavras conceitos concretos, ainda que complexos, que deverão
ser os pilares onde a educação, em todos os níveis, necessita
apoiar-se. Faz-se necessário estudar a problemática da alfabetização
sob a inspiração dessas quatro vertentes. De forma contrária,
a tarefa esvazia-se de conteúdos significativos, forja discussões
inócuas, incrementa idéias distorcidas, gera uma visão
superficial de assuntos tão relevantes.
A alfabetização passa pelo aprofundamento de vários fatores
que inserem o homem no mundo das letras.
O alfabetizado não é só aquele que reconhece sinais gráficos,
aprende fonemas, mecaniza procedimentos de leitura e de escrita, e os alfabetizadores
necessitam preparar-se e estar atentos à responsabilidade que lhes cabe.
Alfabetizar é rasgar horizontes, abrir atalhos, apontar saídas,
descobrir soluções, criar situações concretas e
propor desafios. É fazer o educando trilhar o caminho do conhecimento
formal, e levá-lo a apreender o saber consciente. Não
se trata de uma mera linguagem metafórica, em cujo cerne repousam comparações
de efeito literário: essas palavras guardam a justeza do exercício
de uma verdade irrefutável.
O vislumbre de novas possibilidades provém da consciência; é
essa consciência que deveria perpassar todas as coisas, que precisaria
estar viva e clara na proposta de trabalho do professor alfabetizador. O fracasso
escolar levanta questionamentos importantes e, então, aparecem inúmeros
fatores que procuram explicar tal fato. A abordagem desse problema é
larga e pede diferentes instrumentos de interpretação. Dessa forma,
a falência da educação revela-se em muitas frentes. O despreparo
dos professores, a repetência e a evasão escolar apontam para uma
realidade insustentável: desqualifica-se o ensino e amesquinha-se o homem.
É preciso ver o processo educacional como resultante da conjugação
de ações recíprocas. Assim, o educando deixará de
ser o dono das culpas absolutas, e o aprendiz um incapaz, detentor de todas
as deficiências. É hora de investir num novo rumo, numa outra postura
ante a educação. O período da alfabetização
é responsável pelo insucesso de educandos e educadores. Essa barreira
existe e tem de ser transposta.
O estudo de uma nova conduta filosófica, de uma nova diretriz educacional
nesse campo, poderá servir de suporte para a implantação
de uma outra linha pedagógica que favoreça o alfabetizando, fazendo-o
sujeito e não objeto de sua aprendizagem, de forma a integrar-se em sua
comunidade cultural, descobrindo o mundo que o cerca, decodificando os muitos
contextos existentes, enfim, tornando-se um ser possuidor de senso crítico.
É necessário promover o debate e acionar os mecanismos mobilizadores
de uma ação participativa, criando instrumentos e fomentando recursos
que ergam uma escola capaz de trabalhar o educando como um todo, pesquisando
suas potencialidades e respeitando suas diferenças. A educação
especial não pode afastar-se dessa nova visão, visto que as pessoas
deficientes visuais precisam compartilhar, como quaisquer outras, da construção
do seu saber.
Para tanto, devem ser criados ambientes educacionais ricos de estímulos
e experiências, onde se promovam situações renovadas de
aprendizagem. Constantes mudanças devem ser provocadas, propiciando atitudes
criativas, estimulando atividades que favoreçam o desenvolvimento global
de educandos cegos.
A educação deve estribar-se no mais sério propósito
existente: a ascensão do ser humano. Compreendendo este propósito,
o educador atenderá o seu papel e buscará exercê-lo com
competência e visão crítica. A ação educativa
impõe constantes transformações e procura novas tentativas.
Através dos tempos, desde épocas mais remotas, o homem luta para
aprender. Aprender no sentido mais amplo da palavra, o que passa pelo instinto
de preservação (a sobrevivência), e alcança seu ápice
no refinamento mais elevado do espírito.
Quando se fala em educação especial pensa-se logo em alunos especiais.
Como se poderia entender
o vocábulo especiais?
Pessoas difíceis?
Crianças problemáticas?
Aprendizagem diferente?
Aquele que pretende ingressar nesse campo de ensino precisará saber que
uma criança cega é um ser que se desenvolve, que constrói,
que aprende. Entretanto, ela apresenta necessidades específicas que reclamam
um atendimento especializado e basicamente dirigido a essas especialidades.
Uma criança não é mais ou menos capaz por ser cega. A cegueira
não confere a ninguém nem qualidades menores nem potencialidades
compensatórias. Seu crescimento efetivo dependerá exclusivamente
das oportunidades que lhe forem dadas, da forma pela qual a sociedade a vê,
da maneira como ela própria se aceita.
É de fundamental importância que o professor não veja nesta
criança um aprendiz de segunda categoria, um educando treinável,
cujo adestramento de certas áreas promoverá um desempenho educacional
satisfatório.
Penetrando-se, mais profundamente, na teoria da construção do
conhecimento de Jean Piaget, compreende-se que só a educação
construtivista fornecerá dados concretos para que se cumpra, em essência,
o desenvolvimento intelectual de uma criança cega.
Interagindo com os objetos, com o meio físico e com as pessoas, essa
criança terá o seu crescimento mais facilitado e mais firme.
Tomando-se as idéias construtivistas aplicadas à educação,
diríamos, num primeiro momento, ser de todo impossível alfabetizar
uma criança cega dentro de tais moldes. De maneira inversa a da criança
vidente que incorpora, assistematicamente, hábitos de escrita e de leitura
desde muito cedo, a criança cega demora muito tempo a entrar no universo
do ler e escrever. O Sistema Braille não faz parte
do dia-a-dia, como um objeto socialmente estabelecido. Somente os cegos se utilizam
dele. As descobertas das propriedades e funções da escrita tornam-se
impraticáveis para ela.
As crianças cegas só tomam contato com a escrita e com a leitura
no período escolar. Esse impedimento, sabe-se, pode trazer prejuízos
e atrasos no processo da alfabetização. É a hora da educação
fazer-se mais forte e cumprir com seus reais objetivos: abrindo frentes de conhecimento,
suprindo lacunas, minimizando carências. Os professores que seguem a linha
construtivista consideram até certo ponto desnecessários exercícios
prévios, que preparam o educando para ingressar no processo de alfabetização
propriamente dito.
Eles não acreditam na chamada
prontidão para a alfabetização.
O que deve ficar claro, entretanto, é que no caso da educação
de crianças cegas esse procedimento não pode ser adotado. Como
já foi mencionado, o desenvolvimento global de uma criança cega
requer técnicas e recursos especializados. Dentro do processo educacional
de crianças cegas, é importante que sua evolução
seja acompanhada de forma precisa e venha a propiciar realmente uma evolução,
fazendo-a adquirir um grau mais alto de eficiência. Por isso, nessa fase,
dá-se grande ênfase ao desenvolvimento de um conjunto de habilidades
que são pré-requisitos para a leitura e a escrita do Sistema Braille.
Capacitar uma criança não é condicioná-la, transformando-a
num ser automatizado, com respostas previsíveis e resultados esperados.
A capacitação ressaltada nasce da independência do perfeito
domínio de si mesmo. Quando se fala na importância de desenvolver
capacidades básicas, fala-se da finalidade máxima da educação
especial: dar ao indivíduo portador de qualquer deficiência as
condições essenciais para torná-lo um ser harmônico,
uma pessoa plena, um homem com consciência de si mesmo.
Esses pré-requisitos são trabalhados a partir das dificuldades
geradas pela própria cegueira. Assim, ao acionarem-se mecanismos capazes
de mobilizar estruturas internas, pode-se: ampliar movimentos corporais, fortalecer
músculos, refinar percepções, estimular memória
e amadurecer condutas.
Para o alfabetizador conquistar êxito em sua tarefa é fundamental
que seu trabalho se revista de inúmeros aspectos: conteúdos bem
definidos, métodos e técnicas adequados, material didático
apropriado, enriquecimento de informações reais, liberdade de
criação e de expressão.
Não há uma receita pronta e infalível para educar esta
ou aquela criança. O alfabetizador tem de conhecer o educando que tem
diante de si e sobre o qual recai sua atenção pedagógica.
No preparo e na coerência da prática docente pode-se encontrar
solução para grandes problemas.
Maria da Glória de Souza Almeida é professora do Instituto Benjamin
Constant.
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