| Deficiência visual e educação sexual: a trajetória dos preconceitos - ontem e jhoje |
Resumo
O objetivo deste estudo foi conhecer e compreender a orientação
sexual propiciada por mães de filhos portadores de deficiência
visual. Na perspectiva fenomenológica, analisaram-se vinte discursos
de mães de deficientes visuais. As recorrências nos vários
discursos permitiram conhecer que a desinformação sobre a sexualidade
em geral impede o diálogo entre mãe e filho(a). Estas recorrências
evidenciam igualmente que a repressão sexual alicerça os estigmas
e os preconceitos da educação sexual de deficientes visuais.
Abstract
The objective of this study was to analyze and understand the sexual orientation
given by mothers to sons and daughters with visual deficiencies. From a phenomenological
perspective the conversations of twenty mothers of visual deficients were analyzed.
The convergences of these conversations made clear that lack of information
about sexuality in general impedes dialoques between mothers and off-spring.
Evidence was obtained showing that sexual repression stems from stigmas and
preconceptions about sexual education of persons with visual deficiencies.
Introdução
A história da humanidade, assim como a história dos deficientes,
varia de cultura para cultura, refletindo crenças, valores e ideologias
que, materializadas em práticas sociais, estabelecem modos diferenciados
de relacionamentos entre deficientes e não-deficientes.
Silva, apud Carmo (1989), em seu estudo sobre o deficiente através dos
tempos, revela que na Antigüidade, de um modo geral, existiam dois modos
de relacionamento entre as pessoas que, por alguma razão, afastavam-se
dos padrões desejados, aceitos e ditos normais. Aqueles que
não correspondiam às exigências do meio, como os velhos,
os doentes e os portadores de alguma deficiência eram tratados com tolerância,
apoio, ou mesmo menosprezo e até eliminação.
Esse autor relata que algumas tribos nômades abandonavam seus doentes,
velhos e deficientes em lugares inóspitos, tendo em vista a dificuldade
de transporte, expostos a riscos de um confronto com animais ferozes e/ou com
uma tribo inimiga. Para os esquimós (habitantes da região Ártica
da América do Norte) os deficientes e os velhos eram deixados em lugares
de passagem dos ursos brancos, animais considerados sagrados, para serem devorados,
pois eles acreditavam que assim estariam-lhes oferecendo uma alimentação
saudável, cuja recompensa seria uma melhor qualidade de sua pele, que,
após a morte, seria utilizada pela própria população
na confecção de roupas, botas ou revestimento interno de iglus.
O conto popular japonês, Narayama, relatado por Simone de
Beauvoir (1976) e transformado em filme na década de 80, mostra o conflito
que o primogênito vivencia ao obedecer às tradições
culturais, que consistiam em levar sua mãe para morrer no alto de uma
montanha. A própria mãe se envergonha por não se sentir
decrépita, já que ainda possui todos os dentes, mas ao mesmo tempo
solicita ao filho o cumprimento do ritual sagrado.
Retornando a Silva, deparamos com outros exemplos de tribos vivendo em estado
primitivo no sul do Sudão, no Congo e ao Norte da Tanzânia, cuja
prática social em relação à deficiência é
a da não aceitação. Para essas tribos, o corpo deficiente
materializava as forças dos maus espíritos, e só aos corpos
sãos era concedida total liberdade de expressão, e, desse modo,
os outros corpos podiam se expressar normalmente.
Quanto aos povos hebreus, esse autor relata que ... o homem de qualquer
família - fosse coxo, cego, corcundo, pé ou mão quebrada,
não era digno, puro para praticar tal ação. Acreditavam,
assim, que um corpo portador de qualquer desarmonia fosse detentor de poderes
oriundos dos demônios, cujas impurezas e pecados eram expressos pelas
marcas, sinais corporais que cristalizavam a evidência de
maus espíritos.
No decorrer da história, alguns homens, os detentores do poder, passaram
a adotar a amputação de alguma parte do corpo (orelha, pé,
dedo, mão) como uma prática punitiva que lhes permitia identificar
não só o lugar social ocupado pela vítima, como também
identificar a transgressão às normas e leis.
Essa prática, muito usada entre os escravos, é adotada até
hoje por alguns países do Oriente Médio. O infanticídio
de meninas praticado na Índia revela também a discriminação
em relação à mulher: a mutilação sexual (ablação
do clitóris no Egito) atinge aproximadamente 80% da população
feminina, segundo a Organização Mundial da Saúde - OMS
(1979). Desse modo, não é necessário ter um corpo portador
de alguma deficiência física para sofrer as discriminações.
Muitas vezes o status social, cujos atributos não atendam
aos valores morais, crenças, tradições e modelos estéticos
ditos normais e desejados pelo meio social, encarrega-se de excluir
e de categorizar essas pessoas. À título de ilustração,
cito a condição das prostitutas, as pornai, como eram
chamadas na Grécia antiga ... as pornai usavam uma sandália
na qual impresso no reverso da sola, estava um convite bastante claro... Nas
ruas de terra batida, à medida que elas passavam, ficava escrito no solo
a expressão segue-me. Era um convite para o transeunte que
vinha atrás. (Cavalcanti, 1990:59).
De um modo geral, os estigmas se fazem presentes em relação aos
velhos, negros, índios, deficientes, homossexuais, ou seja, os grupos
minoritários. Às vezes, a própria emancipação
profissional e sexual da mulher provoca no seu meio, ainda hoje, reação
de exclusão e marginalidade. (Bruns e Grassi, 1992). Postura idêntica
registra-se ainda hoje em relação às pessoas que conseguiram
refazer seus projetos de vida e que, ao chegarem aos 60, 70 anos expressam uma
alegria de viver, seja por se permitirem novos envolvimentos afetivos e/ou sexuais,
seja por quererem aprender a dançar ou viajar. Esse modo de ser provoca
reação de espanto e surpresa por parte dos mais jovens, ou até
mesmo por parte dos próprios pares.
Esse modo preconceituoso de nos relacionarmos é mantido e alimentado
pela ideologia do déficit, num círculo vicioso que se encontra
ancorado nas exigências produtivas de uma sociedade de consumo que
só reconhece o indivíduo na medida em que ele produz. (Beauvoir,
1970). Como os velhos e deficientes não produzem, podem ser
descartados. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade legitima sua isolação
e justifica a criação de instituições asilares.
Parece que a prática social de categorizar, rotular as pessoas em normais
e anormais, fortes e fracas, belas e feias e/ou por não possuírem
um corpo detentor de uma cota de energia que lhes permita a sobrevivência,
não foi uma prática somente de sociedades primitivas consideradas
atrasadas, cujas explicações estariam ancoradas na
ausência de conhecimentos científicos e no escasso controle do
homem em relação aos meios de produção.
Sem dúvida, houve mudanças positivas. Cite-se o período
renascentista que representou um marco, um revisar dos preconceitos, normas,
estatutos, crenças e práticas sociais em relação
ao modo de se relacionar com a deficiência, que até então
era explicada como obra de demônios e/ou do divino.
Entretanto, um olhar atento revela que as práticas discriminatórias
continuam sendo vivenciadas ainda hoje por vários grupos de pessoas pertencentes
à sociedade moderna, cujo avanço científico-tecnológico
está concentrado em grandes conglomerados financeiros com poder de controlar
o mercado mundial. Conta, ainda, com a tecnologia eletrônica, com agências
de publicidade que se encarregam de criar desejos, vendidos como imagens fascinantes
que representam poder, ilusão de felicidade e segurança. Esse
desenvolvimento provoca mudanças no modo de pensar, sentir e agir e se
fazem presentes nas relações entre as pessoas.
A perplexidade diante dessas observações, que deixam uma grande
lacuna com relação à questão da deficiência
visual, nos leva a questionar: como os familiares (portadores de visão)
se relacionam com um deficiente visual? Estariam essas mudanças deslocando
os estigmas e estreitando assim as relações entre videntes e não-videntes?
Como ocorre a relação de mães portadoras de visão
com filhos portadores de deficiência visual? Essas questões motivam
o prosseguimento dessa investigação. Entretanto, ao centrarmos
esta busca em torno da sexualidade, devemos buscar compreender como ocorre a
orientação sexual de deficientes visuais. Isto é, quais
as dificuldades e/ou facilidades vivenciadas pelos familiares, em especial pelas
mães, por serem elas, as pessoas a quem, normalmente, a sociedade, através
dos tempos, outorgou o papel de responsável pela educação
da prole.
A ausência de bibliografia e estudos que enfoquem a sexualidade de deficientes
visuais justifica o interesse pelo assunto, e nos leva à possibilidade
de uma maior reflexão sobre o tema, o que pode nos fornecer novas pistas
sobre a educação sexual de deficientes visuais.
A sexualidade, segundo Chauí (1989:15), não se reduz aos
órgãos genitais (ainda que estes possam ser privilegiados na sexualidade
adulta) porque qualquer região do corpo é susceptível de
prazer sexual, desde que tenha sido investida de erotismo na vida de alguém,
e porque a satisfação sexual pode ser alcançada sem a união
genital. Ela é polimorfa, polivalente, ultrapassa a necessidade fisiológica
e tem a ver com a simbolização do desejo. Está submetida,
portanto, às interdições e transgressões, diferenciando-se
de cultura para cultura e de época para época.
Isso significa que a religião, a moral, a política e a própria
ciência se encarregam de explicitar o modo de lidarmos com a nossa sexualidade,
estabelecendo regras básicas a serem seguidas. Os tabus, preconceitos
e estigmas perpassam os séculos e habitam o universo das relações,
sejam elas familiares, escolares ou sociais.
O mundo ocidental é marcado e demarcado pelo poder da pedagogia cristã,
que, com seus eficazes métodos de continência (moderação)
e de abstinência (supressão), controla e disciplina as práticas
sexuais (Chauí, 1980).
Segundo Bernardi (1985:25), a família tende a imprimir na personalidade
dos subordinados uma determinada estrutura psíquica, aprovada pela sociedade,
e para isto vale-se de meios sugeridos pela própria sociedade.
Isto significa que, ao nascer, o deficiente visual se encontra inserido num
sistema de relações e de significações sociais que
será alicerce, o lugar em que organizará e estruturará
sua própria identidade.
Nessa perspectiva histórico-cultural, a família tende a imprimir,
geralmente, aos portadores de deficiência visual, a idéia de que
são incapazes, inábeis, inseguros e assim vão sendo educados
para serem indefesos, dependentes e até considerados por alguns como
assexuados e desinteressantes.
Essas contingências, em geral, impedem o deficiente de se desenvolver
e de vir a estabelecer consigo próprio e com o outro uma relação
que lhe possibilite expressar-se como um ser sexuado. Ao contrário, há
um ocultamento do desejo. O prazer e o erotismo são vivências somente
permitidas aos ditos normais. Como nas palavras de Vash (1991:83)
numa sociedade que venera gente bonita, defeitos sérios parecem
intoleráveis.
Isso ocorre pela ausência ou pela falta de acesso a informações,
por parte dos responsáveis pelos deficientes visuais, que desconhecem
que a criança portadora de deficiência visual deveria ser lançada
a infinitas situações de desafios e estímulos, iguais ou
superiores aos da criança dotada de visão normal, já que
lhe falta um dos sentidos - a visão, que é, sem dúvida,
de máxima importância para estabelecer os matizes de significações,
mas que, no entanto, não é o único. Esquecemos que todo
gesto ou processo do organismo (...) pode tornar-se material para a expressão
da atividade psíquica, posto que pode adquirir um valor semiótico.
(Bakhtin, 1981:52). Por outro lado, Goffman (1980) diz que a familiaridade com
a deficiência, não significa necessariamente a redução
do estigma.
Os seguintes relatos de familiares de deficientes, corroboram tal afirmativa.
Bruns, M.A.T. (1995) relata que ao dirigir-se a uma mãe de deficiente
visual, perguntou-lhe: Quantos filhos você tem? Ela respondeu: Tenho
quatro. Como essa enunciação não esclareceu o suficiente,
em seguida, perguntou: você tem quatro filhos, sendo que uma é
cega ou tem quatro e mais uma que é cega. A mãe respondeu: É...
Eu tenho cinco, só que uma é cega.
Em relação a um irmão de deficiente visual, a situação
se manteve a mesma. Ao inquiri-lo sobre quantas pessoas dessa família
trabalhavam, ele respondeu: Eu e meu pai. Em seguida foi-lhe perguntado:
E o Louro? (irmão deficiente visual que trabalhava em uma empresa). Ele?
É cego. O estigma de incapaz, inválido, incompetente é
tão arraigado em nossa sociedade que atinge até mesmo aquele que
se faz independente economicamente. No caso acima, inclusive, o salário
de Louro era maior que o do irmão dotado de visão.
Esses depoimentos revelam como é difícil e preconceituosa a relação
entre deficientes e não-deficientes, e evidencia também que a
família reproduz a ideologia do déficit, isto é, ao olhar
para a pessoa portadora de deficiência visual, vê o que lhe
falta, sua incompletude: a pessoa torna-se apenas deficiente, perdendo suas
características de SER. (Bruns e Leal, 1994:33).
Em relação à sexualidade, seguem discursos de mães
de filhos portadores de deficiência visual, que possibilitam uma visão
real da educação sexual como ela ocorre.
Sujeitos
Participaram deste estudo 20 mães, que se dispuseram a falar a respeito
da orientação sexual que ofereciam a seus filhos(as) portadores
de deficiência visual.
O encontro com essas mães ocorreu por intermédio de profissionais
de uma instituição que se dedica à formação
escolar de deficientes visuais em uma cidade do interior do estado de São
Paulo. Após tomarem ciência de que o objetivo desse estudo era
o de compreender a maneira como tratavam de assuntos referentes à sexualidade
com seus filhos, foram convidadas a falar das dificuldades e/ou facilidades
vivenciadas no universo familiar.
A idade das mães entrevistadas variou entre 35 e 53 anos, e o grau de
escolaridade, do 1º grau incompleto ao 3º grau incompleto. Todas eram
casadas e tinham em média três filhos. Ocorreram quatro reuniões,
nas quais as mães expressaram como se processava a educação
sexual. O diálogo foi mediado pela questão orientadora: Fale
a respeito do modo como você orienta seu filho(a) sobre os assuntos relacionados
a sexo, como: gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, aborto,
desejo sexual, masturbação, relação sexual.
Trajetória Metodológica
Os diálogos foram gravados, transcritos e analisados segundo os momentos
da trajetória fenomenológica apresentada por Joel Martins, no
livro Um Enfoque Fenomenológico do Curriculum: Educação
como Poiéses (1992), que são: descrição, redução
e compreensão (que envolve interpretação).
Análise fenomenológica
Descrição ou depoimento: Constitui um dado de importância
significativa para a pesquisa fenomenológica. Permite o acesso à
vivência do fenômeno. Isto quer dizer que o sujeito que descreve
sua experiência é situado, e que os significados das suas vivências
emergem do seu real vivido.
Redução: Este momento constitui o que Husserl chamou de epoché,
que significa suspensão ou parada, uma saída da maneira comum
de olhar e de abandonar os preconceitos em relação ao fenômeno
que está sendo analisado. O resultado da redução é
um conjunto de asserções significativas para o pesquisador, que
apontam para a experiência do sujeito, para a consciência que este
possui do fenômeno.
Compreensão: Envolve sempre uma interpretação; é
uma tentativa de explicitar o significado que é essencial
na descrição e na redução, como uma maneira de investigação
da experiência.
Apresentação dos depoimentos
Das vinte mães de deficientes visuais que participaram deste estudo,
apenas uma expressou que, apesar de não ter recebido em sua vida nenhuma
orientação de como abordar os assuntos relacionados à sexualidade
em geral, e, muito menos, relacionados a pessoas portadoras de deficiência
visual, estabeleceu no decorrer do relacionamento mãe-filho, uma orientação
sexual; as outras dezenove revelaram que não falavam desses assuntos
com seus filhos(as).
Cada mãe recebeu um pseudônimo para que suas identidades pudessem
ser preservadas. Como os discursos foram muito repetitivos, foi preciso selecioná-los
para facilitar a apresentação:
Jô, 35 anos, 2º grau completo - Não sei como falar,
nem para os meus filhos que enxergam, pro cego então... é um problema.
(filho 8 anos)
Rô, 49 anos, 2º grau incompleto - Nesses assuntos eu não
toco. (filho 12 anos)
Filô, 40 anos, 2º grau incompleto - Tenho vergonha, não
tô preparada. (filho 8 anos)
Má, 45 anos, 1º grau incompleto - É muito difícil...
eu não sei falar sobre isso. (filho 16 anos)
Iraí, 36 anos, 1º grau incompleto - Sei lá... eu entrego
a Deus. (filha 15 anos)
Manaí, 51 anos, 3º grau incompleto - Ah, Deus! Se eu soubesse
eu falaria disso. (filha 12 anos)
Jaci, 53 anos, 3º grau incompleto - Eu não sei falar sobre
isso... eu aprendi sozinha. (filha 19 anos)
Morena, 52 anos, 1º grau incompleto - Eu tenho pena dele, mas o que
eu vou fazer? Eu não sei falar nada pra ele. Em casa isso não
é falado. (filho 17 anos)
Narci, 49 anos, 2º grau incompleto - Eu já peguei ele pegando
lá, o que vou fazer? (filho 13 anos)
Rosa, 45 anos, 2º grau completo - ... após eu acreditar que
meu filho era cego, pensei... ele precisa receber o que há de melhor
em relação a tudo... ele precisa saber que homem é diferente
de mulher... Você sabe, cego vê com as mãos. É difícil
mas eu falei com o pai dele: nosso filho precisa pegar em você. Ele ficou
vermelho de vergonha, mas eu insisti e assim na hora do banho, de um modo natural
aconteceu o reconhecimento do corpo do adulto.
Aí aconteceu o que eu nem esperava, meu filho falou ... Mãe eu
conheci o pai, mas não sei nada da mulher, e falou: como você é?
Fiquei nervosa e respondi a ele que era verdade. Ele percebeu meu nervosismo
e falou: A senhora tá nervosa? Respondi: estou, porque não sei
falar direito com você, mas prometo que vou resolver esse assunto. De
noite fiquei pensando... Se cego vê com as mãos, ele precisa me
tocar... Ah! Mas de que maneira? Não tinha coragem. Sei lá, Deus
me ajudou e como eu tinha uma sobrinha recém-nascida, pensei: tá
aí a solução. E assim ocorreu, na hora do banho meu filho
ajudou-me e assim tocou pela primeira vez um corpo diferente do seu. Ele já
sabia que tinha diferença, mulheres têm seios e homem não,
mulher não tem barba.
Hoje falo com ele sobre menstruação e do jeito que os filhos são
gerados. Acho que ele não tem problemas. Mas foi difícil.
(filho 13 anos)
Compreensão e interpretação
O diálogo do silêncio x o silêncio do diálogo. O que
significa esse silêncio? Que pistas nos fornece a não-palavra
em direção à compreensão da sexualidade de deficientes
visuais? À primeira vista poderia se pensar que o silêncio nada
diz, já que não se vale das palavras. No entanto, numa observação
mais cuidadosa do fato, percebemos que esse nada é permeado
por fissuras recheadas de sentidos e sentimentos. Segundo Orlandi (1992:49),
o silêncio significa esse nada se multiplicando em sentidos:
quanto mais falta, mais silêncio se instala, mais possibilidade de sentidos
se apresenta.
Isto significa que ao dizerem que não sabem falar disso,
aquelas mães reticentes estão falando daquilo que, para elas,
é proibido e censurado. E, para compreendermos a razão da proibição
e a causa da censura, faz-se necessário remeter-nos a outro discurso,
ou seja, o da repressão sexual e o da moral conservadora, que, por sua
vez, do modo como hoje conhecemos esses discursos, estão ancorados na
origem da família burguesa, que, nos dizeres de Chauí (1980:129-31),
está sob a regulamentação do Estado, que vem através
dos tempos consolidando e controlando os tipos variados de regime de contrato
de casamento, bem como os referentes a sua dissolução, o que envolve
a elaboração de leis sobre aborto, adultério, pensão
familiar, partilha de bens, entre outros.
Nesse sentido, a família é também uma instituição
política que, em parceria com a Igreja, estabelece normas e códigos
de conduta, os quais, interiorizados desde tenra idade, incumbem-se de realizar
um amálgama de proibições, interdições e
permissões, que, materializados em práticas sociais, demarcam
os limites e o como devemos expressar a afetividade e o erótico, ou seja,
nossa sexualidade.
Os dados estão lançados, a censura instalada. No entanto, a ousadia
de nossos desejos se faz presente no mais dos insignificantes gestos
e pensamentos.
O silenciamento dessas mães de deficientes visuais não
representa garantia de que seus filhos não estejam recebendo uma formação
sexual. Ao contrário, recebem-na por intermédio de gestos, timbre
da voz, comentários sobre os fatos que ocorrem no dia-a-dia, e mesmo
pelo modo como a linguagem do toque é vivenciada no universo familiar.
Tudo isso demarcando o limite entre o lícito e o ilícito, o permitido
e o proibido; enfim, a interiorização da repressão sexual
ultrapassa o sentido da visão. Isto significa que a dificuldade de tocar
e de sentir sem preconceitos o próprio corpo nos é legada historicamente
e continua reeditada no presente, acompanhando-nos com suas marcas tal como
nossas impressões digitais.
O corpo materializa a presença do humano no mundo e desse mundo participa
carregando sua mente, sua capacidade intelectual e emocional, numa relação
dialética constante. A sexualidade é a dimensão mais abrangente:
somos o corpo que temos, nele está contida a energia vital que nos remete
à origem do existir, dos instintos, e à transcendência de
níveis diferentes de experiências. Segundo Merleau Ponty (1971:168),
a sexualidade é o que faz com que o homem tenha uma história.
Se a história sexual do homem dá a chave de sua vida, é
porque na sexualidade do homem se projeta sua maneira de ser com relação
ao mundo, isto é, com relação ao tempo e aos outros homens.
Nesse contexto, o não-dito da maioria das mães revela
a história da repressão sexual e a história da deficiência,
e, a um só tempo, reproduz o estigma de que o deficiente visual é
desinteressante, assexuado e deserotizado. Paradoxalmente, esse
silêncio que habita essas relações familiares
não contém a ousadia de Eros, que às vezes até se
manifesta, de forma marginal. Talvez, por isso mesmo, Eros seja tão controlado,
o que não o impede de agir na clandestinidade. Parece até que
a censura, a repressão e o controle são ingredientes que o motivam
a subverter a ordem pré-estabelecida: as práticas de incesto,
sadismo, masoquismo, as pedofilias. Tudo isso expressa as fissuras
da repressão sexual, isto sem falar dos amantes. Até mesmo os
intermezzos de amor revelam tal ousadia.
Como nos dizeres de Lúcia Castelo Branco (1987:11), é curiosa
a flexibilidade de Eros. Com sua onipresença de deus, ele consegue sempre
estar em toda parte, camuflado sob variados disfarces, máscaras sociais
que lhe garantem livre trânsito, mesmo nos regimes mais autoritários.
Essa sua flexibilidade e ousadia visualiza a sexualidade por um prisma dinâmico,
dialético, em que, apesar de códigos, estatutos, leis, tabus e
preconceitos para submetê-la a uma padronização, sua prática
revela que vez ou outra Eros, sorrateiramente, se desloca dos domínios
da repressão e da hipocrisia e se coloca como mobilizador de relações
afetivas, que almejam trilhar pelos caminhos da compreensão, do diálogo
e entendimento, sem falarmos na criatividade que se faz presente tanto nas artes
quanto nas ciências. Seu poder não somente abre as portas dos sonhos
que alimentam e alicerçam, a um só tempo, os grandes projetos,
como é capaz de eternizar o presente.
Nessa perspectiva, o discurso de Rosa oferece pistas desse caminhar pelas trilhas
do diálogo com vistas à compreensão. Após
eu acreditar que meu filho era cego, pensei... Ele precisa receber o que há
de melhor em relação a tudo; ... cego vê com
as mãos, ele precisa saber que homem é diferente de
mulher.
Essa postura mostra que Rosa, após aceitar a deficiência visual
do filho, assegurou também a possibilidade de ele receber o que
há de melhor em relação a tudo.
Esse modo de relacionar-se com a deficiência revela que Rosa percebeu
e concebeu o filho como um ser não limitado na sua incompletude, postura
essa, aliás, comumente adotada pelos portadores de visão, que
ao olhar para o deficiente vêem apenas a sua deficiência, ou seja,
o que lhe falta.
O discurso de Rosa possibilita um deslocamento desse olhar preconceituoso, no
qual se pode mesmo buscar pistas para uma reflexão sobre a importância
das relações familiares se fazerem de modo mais autêntico.
A sensibilidade e a sinceridade foram os lemes que conduziram Rosa a relacionar-se
com seu filho deficiente. Sua transparência em dizer ao filho suas dificuldades,
por não saber como orientá-lo sexualmente, facilitou o diálogo,
condição sine qua non para estabelecermos laços perenes.
Esse modo de ser descoloca as interdições, os tabus, a hipocrisia
e os sentimentos de culpa que, materializados em práticas sociais, nos
têm legado seqüelas, que nos acompanham por toda a existência.
Haja vista nossa dificuldade de sentir prazer em tocar o próprio corpo.
Em geral, percebemos o corpo por intermédio da dor, do desconforto e
do desprazer, um resquício, quem sabe, dos idos tempos de flagelação.
Nesse sentido, o discurso de Rosa possibilita novos horizontes em relação
ao modo de lidarmos com a sexualidade do deficiente visual. Cego vê
com as mãos. Os portadores de visão precisam aprender esta
lição.
A fala de Rosa lança também um questionamento em relação
aos estigmas e preconceitos que solapam e corroem a possibilidade do humano
ousar lidar prazerosamente com sua sexualidade. Significa ainda a desmitificação
do corpo, que foi e ainda é visto pelo discurso moralista como a sede
dos sentidos depravados, que, ancorado na visão platônico-cristã,
dissocia o amor espiritual do amor carnal e associa sexo ao pecado (Aranha,
M.L.A. e Martins, M.H.P., 1986:361). Os discursos de Filô, Rô e
Manaí demarcam essa visão pecaminosa que ainda hoje é atribuída
ao corpo.
Outro aspecto que os discursos fazem emergir é o de que as dificuldades
vivenciadas por essas mães em torno de questões ligadas a sexo
não ocorrem somente por serem mães de deficientes visuais... Jô
diz: não sei falar (de sexo), nem para os meus filhos que enxergam,
para cego então... é um problema. O problema está
centrado em questões culturais e ideológicas que dizem respeito
à realidade social e política da instituição familiar
que, por sua vez, repete na educação da criança portadora
de deficiência visual não só o estigma de incapaz, como
o de desinteressante e assexuado. Nesse sentido, são punidos em dose
dupla.
Os discursos são altamente reveladores e deles brotam pistas para um
revisar de nossas leis, códigos e normas de boa conduta. Lança
ainda um apelo à sociedade no sentido de rever seus padrões de
normalidade, como também os de estética, isto sem
falarmos que o modus vivendi de considerarmos o sexo somente nos seus aspectos
biológicos não tem dado conta de conter a flexibilidade e ousadia
de Eros que, com seus disfarces, trafega sorrateiramente pelos caminhos do segredo
e da clandestinidade. Afinal de contas, a simbolização é
a sua grife, e a fantasia e os sonhos, seus aliados sem fronteiras.
Horizontes
Ao lançar um olhar sobre essa trajetória, desde os idos tempos
da história dos deficientes à fala velada da sexualidade, vê-se
que é preciso retirar a viseira estigmatizadora que permeia a relação
entre os dotados de visão e os portadores de deficiência visual,
uma vez que o diálogo do silêncio assinalou e demarcou
sérias e profundas dificuldades das mães ao abordar assuntos relacionados
a sexo. Nota-se que as barreiras ocorreram porque as mães não
sabiam o que falar, em termos de informação, o que, por si só,
favorece o silenciamento. Mas a moral repressora que habita os recônditos
do nosso ser encarrega-se de marcar, com distanciamento e vergonha, uma relação
que poderia vir a ser de esclarecimento, aproximação, compreensão
e autenticidade.
É chegada a hora de encararmos Eros como nosso aliado: olharmos, quem
sabe, para o caminho percorrido por Rosa e, tomando-o como base, vasculharmos
nossas relações familiares, valendo-nos de uma reflexão
sobre a hipocrisia e falta de autenticidade que permeiam não só
o modo de lidarmos com a sexualidade do(s) portador(es) de deficiência
visual, mas essencialmente com a nossa.
Com isto quero dizer que uma das pistas para nos aliarmos a Eros é revisarmos
o nosso modo de lidar com essa nossa tão familiar e desconhecida sexualidade;
olharmos com cuidado para a criança e para o adolescente que habita em
nós e que continuam reeditados em nossos gestos, toques, ao longo da
vida, e que se fazem presentes no nosso modo de lidar com a sexualidade do outro.
Como nos dizeres de Bonder (1992:195), para podermos modificar uma atitude
para com o outro, devemos entender que há um outro em nós e nós
no outro. Se conseguimos trabalhar e crescer como indivíduos, não
só nós nos beneficiamos, mas o outro em nós também.
A visão ou a relação do outro em nós é engrandecida
de tal forma que irá, certamente, refletir no elemento nós-no-outro
enriquecendo-o também. E o resultado final deste movimento é a
transformação do outro no outro, ou de sua pessoa como a enxergamos.
Isto significa que nós - pais, educadores, médicos, psicólogos
- antes de utilizarmos somente manuais, receitas e teorias que nos ensinam a
falar sobre sexo, precisamos indagar sobre como estamos vivenciando a nossa
própria sexualidade. Com base nessa reflexão, torna-se possível
a abertura de espaços para uma educação sexual voltada
para a compreensão da sexualidade do portador de deficiência visual.
Maria Alves de Toledo Bruns é doutora em Psicologia Educacional e docente
do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo - Campus de Ribeirão
Preto.
Bibliografia
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Vamos
jogar goalball?
por Antonio João Menescal Conde
Resumo
Definição e regras da modalidade desportiva denominada goalball,
desenvolvida especificamente para pessoas cegas e portadoras de visão
subnormal.
Abstract
Definition and rules of the modality named goalball, an especific game for the
blind and visually handicapped people.