| Acessibilidade à informação pelo deficiente visual |
INTRODUÇÃO
O processo de informatização da informação é
um fenômeno tão recente no Brasil que poucas instituições
na área cultural e educacional podem se vangloriar de tê-la consolidado,
ou, até mesmo, de terem avançado na sua realização.
Nisto, a Divisão de Documentação e Informação
do Instituto Benjamin Constant, criada em 1994, não constitui caso excepcional.
O projeto de informatização do IBC teve início, timidamente,
por volta de 1990, com a elaboração de um plano diretor, intensificando-se
a partir de I992. Sua prioridade foi a Imprensa Braille, escolha compreensiva
e justa, uma vez que cabe ao Instituto produzir e distribuir o atualmente único
periódico no Sistema Braille, no Brasil.
Apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas pelos órgãos
públicos no que tange à aquisição, instalação,
manutenção de computadores e a capacitação de recursos
para sua utilização e, também por conta delas, a Divisão
de Documentação e Informação do IBC vem buscando
alternativas que lhe permitam oferecer ao usuário deficiente visual um
leque de opções que se adeqüem às suas necessidades.
Nessa perspectiva oportuno seria abordar algumas questões relacionadas
com o funcionamento na situação atual da biblioteca do IBC, procurando
encaminhar uma breve reflexão sobre possíveis soluções
a serem implementadas, visando sua otimização.
O LIVRO BRAILLE
Começo pelo problema do livro braille. Consciente da complexidade e sensibilidade
do assunto. Todos sabemos da importância do Sistema Braille para a emancipação
do portador de deficiência visual. Graças a ele, os canais de informação
sobre o mundo de que este último dispunha puderam multiplicar-se, quantitativa
e qualitativamente, numa escala sem precedentes.
Não obstante o reconhecimento de suas indiscutíveis virtudes,
seria imprudente passar ao largo de algumas dificuldades inerentes ao sistema.
A primeira, sem dúvida, é o volume, que a transcrição
de qualquer texto, sobretudo a dos textos literários, necessariamente
implica. A segunda, obviamente conseqüência da anterior, é
o problema do espaço necessário para acolher as obras transcritas,
problemas cujos desdobramentos se farão sentir, mais cedo ou mais tarde,
no âmbito financeiro. A terceira dificuldade e, certamente não
a menor delas, é a deterioração rápida do material
impresso, por compressão. Evitá-la, tem novamente implicações
de caráter espacial, por causa do acondicionamento, sem falar nos recursos
de pessoal necessários ao manuseio adequado do acervo.
Não será demais lembrar, a propósito, que a própria
utilização do livro pode também contribuir para o aplainamento
do relevo pontilhado. Qualquer livro está sujeito ao desgaste pelo uso.
O livro braille, no entanto, pareceria , neste sentido, mais sensível
aos efeitos da leitura, com o inconveniente adicional de uma reposição
mais lenta, em virtude do rarefeito elenco de profissionais qualificados para
esta atividade, sendo particularmente escassos os recursos humanos e as instituições
capazes de operar os dispositivos tecnológicos mais avançados,
compatibilizados com o Sistema Braille no Brasil, hoje.
Finalmente, é de domínio público o fato incontornável
de que o acervo de obras no Sistema Braile disponível nas bibliotecas
especializadas ou não, continua muito aquém até mesmo das
mais modestas expectativas e necessidades dos portadores de deficiência
visual. E não há indícios positivos de que, no curto prazo,
tal situação venha a modificar-se.
AS ALTERNATIVAS
Para suprir este tipo de limitação, o IBC, como outras instituições,
vem recorrendo, desde há muito tempo, ao serviço de ledores voluntários,
seja através da leitura direta para o usuário deficiente visual,
seja através da mediação do livro falado, isto é,
texto lido e gravado.
Desse modo, para suprir e compensar as insuficiências de um serviço,
constituiu-se outro, igualmente marcado por limitações e problemas.
Sem demérito algum para a figura do ledor voluntário, cuja disposição
e disponibilidade merecem todo respeito e reconhecimento, o sistema que nele
se baseia apresenta fragilidades estruturais. A mais grave delas é justamente
a que comumente se tenderia a ver como virtude, isto é, o caráter
filantrópico, ou, se preferirem assistencial. Não se trata de
condenar a boa vontade e o ânimo compassivo daqueles que se dispõem
a dedicar parte do seu tempo à leitura para o deficiente visual. Longe
disso, inclusive porque este serviço deve sua existência a este
tipo de qualidade que teima em persistir até mesmo numa sociedade em
que o anonimato e o individualismo vêm deixando marcas cada vez mais profundas.
O fato, entretanto, é que o próprio voluntariado, tal como é
concebido no Brasil (isto é, quase sempre como um favor), torna o serviço
precário. A falta de compromisso conduz a altos níveis de rotatividade.
Qualquer projeto mais consistente torna-se pois, a médio e longo prazo
inviável. Esta situação conta ainda com um agravante que
é a proibição formal de serviço voluntário
em órgãos públicos o que não só reforça
como impõe a ausência de compromisso. Além desse problema
há outro. A despeito de seu melhor parecer, a instituição
acaba por colocar-se em contradição consigo mesma, pois ao invés
de contribuir para a autonomia do deficiente visual, neste caso reforça
sua dependência, condicionando o acesso à informação
- elemento crucial de sua autonomia - às vicissitudes naturais de um
corpo de ledores que, por força de lei, ainda não é, e
nem pode ser institucionalizado.
Até agora talvez tenha valido o argumento de que não era possível
fazer de outro modo. Isto, no entanto, mudou. E mudou muito se levarmos em consideração
o arsenal tecnológico de que dispomos hoje em dia, exemplificado pelos
sintetizadores de voz, máquinas de leitura ótica, Braille Hablado,
além do CCTV que, no nível institucional, resolveu o problema
de acesso independente à leitura pelo portador de visão subnormal.
Torna-se, pois, claro que as soluções para os problemas apontados
só podem surgir da exploração conseqüente dessas novas
possibilidades tecnológicas, embora com algumas restrições.
No âmbito institucional, existem condições que permitem
oferecer ao usuário não só o equipamento, mas, também,
a capacitação necessária ao seu pleno aproveitamento. Fora
desse âmbito, dada a persistência das dificuldades de acesso, fundamentalmente
de ordem econômico-financeira, a utilização desses recursos,
para a maioria do contingente deficiente visual torna-se inviável, devido
ao elevado custo dos mesmos. Por conta disso, para a maioria dos usuários
a grande alternativa continua sendo o livro falado.
Suas vantagens são inúmeras e quase todas evidentes. Não
custa porém recordá-las em síntese, a começar pelas
mais óbvias, que são as facilidades de acondicionamento, duplicação,
transporte, manuseio técnico e possibilidade de adequação
à disponibilidade de tempo e espaço do usuário. Além
disso, tem a virtude de ser economicamente mais acessível; aproveita
um canal preferencial e tecnicamente educado de percepção do mundo
(a audição), no caso dos portadores de deficiência visual;
isto sem falar na possibilidade de ampliação e atualização
mais ágil do acervo, inerente a essa tecnologia. Por fim, e, de maneira
destacada, cabe apontar o caráter democrático desse recurso, dado
o aproveitamento amplo da capacidade instalada nele de difusão através
do rádio, veículo de informação por excelência
desse público.
Com base nesse entendimento, consideramos como uma das soluções
possíveis o amadurecimento do voluntariado no Brasil, mediante um trabalho
de investimento na mudança de postura filosófica, relativa a percepção
que a sociedade, representada neste momento por aqueles que nos procuram para
oferecer seus préstimos, tem da pessoa portadora de deficiência
visual, por um lado, e a criação da profissão de ledor
público, em nível institucional, o que garantiria a continuidade
e a qualidade do livro falado, a exemplo do que já se faz na Fundacion
Braille Del Uruguay. Uma segunda solução, já adotada em
países norte-americanos, seria a concessão de bolsas de estudo
a alunos deficientes visuais de 2º e 3º graus, visando permitir-lhes
a contratação remunerada de ledores pessoais.
CONCLUSÃO
Poderíamos dizer o que, de certo modo, todos sabemos, mas é preciso dar-se conta com absoluta clareza que:
1º- repousa na vontade política a consolidação dos meios que permitem ao estudante, nosso público preferencial, o acesso à informação organizada acessível e tecnologicamente adequada as restrições impostas a ele pela própria natureza da deficiência;
2º- o acesso à informação organizada e acessível através de meios tecnologicamente adequados, é o penhor da autonomia do portador de deficiência visual e, como tal, condição sine qua non de sua cidadania, isto é, de sua capacidade de fazer valer os seus direitos constitucionais e
3º- para garantir este acesso à informação organizada e tecnologicamente adequada às necessidades desse público, a variedade do repertório de alternativas será a sua maior virtude. Neste sentido, o Livro Braille, os computadores com a utilização de programas adequados à produção de impressos em Braille, as máquinas de leitura ótica, inclusive o CCTV, o livro falado e os ledores voluntários não devem ser considerados recursos mutuamente excludentes ou concorrentes, mas termos de um somatório cujo equilíbrio e versatilidade pode garantir ao deficiente visual um melhor atendimento de suas necessidades e direitos, contribuindo para tornar a sociedade brasileira mais justa, também nesta dimensão.
Vera Lúcia de Oliveira Vogel é professora e Chefe da Divisão
de Documentação e Informação do Departamento Técnico
Especializado do Instituto Benjamin Constant e membro da Comissão Editorial
desta Revista.
Fonte: Extraído da revista Benjamin Constant número 02 - janeiro de 1996 - publicação técnico científica do Centro de Pesquisa, Documentação e Informação do Instituto Benjamin Constant (IBCENTRO/MEC).