| O sujeito - construtor da educação especial |
A Modernidade e a Crise do Sujeito
Numa sociedade onde impera a força massificadora, sob formas distorcidas
de liberdade, cresce a necessidade do desenvolvimento da consciência crítica,
levando a um comportamento ético/político menos ingênuo,
de respostas mais criativas e com maior capacidade de decisão. Este mundo
que vem sendo construído pelo poder constituído, político,
econômico e social, respaldado nos princípios neo-liberais de competitividade/performatividade,
tem se manifestado extremamente excludente, ao supervalorizar resultados que
sejam facilmente convertidos em lucro para as classes hegemônicas. Esta
busca desesperada de mais-valia para colocar os países em condições
de competitividade, no mercado internacional, tem sido efetuada em prejuízo
dos investimentos na área social. Com freqüência, somos surpreendidos
com o anúncio de taxas alarmantes de desemprego e miséria, em
países considerados de primeiro mundo. O avanço tecnológico
vem caminhando, lado a lado, com o caos social, estimulado, em grande parte,
pelo descuido com serviços básicos, como saúde, educação,
moradia. Em nenhum outro momento, esta contradição mostrou-se
tão intensa, e isto vem requerendo análise cuidadosa e busca de
novas saídas para a crise que atinge a todos.
A modernidade carrega consigo o ônus do desmoronamento da razão,
e, com ela, a crise do sujeito. Esta razão que prometia a redenção
da humanidade, pela ciência e pela tecnologia, converteu-se em instrumento
de desumanização. A razão instrumental solapou a crítica
(Habermas, 1982) e universalizou-se em grande escala. Japiassu (1991) declara
que a racionalidade científica transformou-se em instância cultural
reconhecida por todos. Uma vez instaurada como saber dominante, a ciência,
por ser considerada isenta de pressupostos ideológicos e de juízos
de valor, transforma-se numa espécie de emblema para as diretrizes do
poder político. E, em nome da ciência e da tecnologia, muitas barbaridades
foram cometidas contra a humanidade: o nazismo e as diferentes formas de apartheid
são fortes exemplos disso.
Esta experiência particular da razão que fragmenta a consciência,
posto que tem como uma das suas conseqüências o condicionamento do
sujeito à visão tecnocrática, segundo a qual os técnicos
são os únicos responsáveis pela interpretação
da realidade e do mundo vivido de cada um, leva à reprodução
das visões dominantes e, conseqüentemente, a uma postura acrítica
diante do mundo. Assim, o sujeito encontra-se mais próximo da condição
de objeto (de observação laboratorial e de consumo) que da condição
de sujeito, assim como a define Foucault (1984), como ser que analisa criticamente
a realidade, busca permanentemente o conhecimento e, eventualmente, transforma
o real.
Esta racionalidade imperante no mundo moderno, ao converter os ideais de liberdade
e igualdade em ideais de competição e massificação
cultural (Rouanet - 1993) fala que a liberdade que a modernidade conhece é
a liberdade de todos pensarem o mesmo, acabou por unificar os homens e dividi-los,
ao mesmo tempo. A unificação do modo de ser dos homens se dá
na medida em que todos são convocados a assumirem as idéias, os
ideais, os projetos dos grupos hegemônicos da sociedade. Neste sentido,
o que ocorre é mais a divisão do que, propriamente, a união
entre os homens. Os homens acabam sendo divididos de acordo, não apenas
com a classe social a qual pertencem, mas, sobretudo, pelo que cada um pode
render ao desenvolvimento da sociedade tecnocrática. Assim, importa fazer
com que os homens sejam mais produtivos e não mais humanos. Rubem Alves
(1984) critica esta sociedade que está sempre preocupada com o futuro,
com aquilo em que cada um pode transformar-se, e esquece, com isto, do presente,
esquece de investir na felicidade e no prazer que se constróem momentaneamente.
O sujeito, então, torna-se duplamente fragmentado: pela consciência
e pela fuga do presente. O presente já não representa mais a expressão
autêntica do cotidiano, mas a projeção do vir-a-ser, daquilo
que a vida poderá tornar-se, enquanto processo histórico construído
pelos técnicos, cabendo, portanto, a cada um adaptar-se, da melhor forma
possível, às injunções da realidade. A perda de
autenticidade e de autonomia, diante, até mesmo, das suas representações
imaginárias constitui, em nossos dias, motivo de inquietação
e questionamento. Nesse momento em que nunca se falou mais em cidadania e construção
da democracia, observa-se a intensificação das demandas teóricas,
no sentido da compreensão e transformação da atual situação
do sujeito.
O fato de a modernidade ter instaurado um projeto de pensamento para o Ocidente
e que este pensamento encontra-se pautado numa certa experiência da razão
(Japiassu, 1991) que se vincula às necessidades e peculiaridades do mercado
(de bens materiais e simbólicos) referencia a emergência de duas
orientações básicas para o processo de conhecimento: uma
que se inspira neste projeto enquanto processo natural, e outra que recusa a
aceitação deste pensamento como fundamento da prática social.
Portanto, o espaço onde se movimenta o conhecimento (científico,
epistemológico, filosófico) é um espaço eminentemente
político, que implica a opção por certos compromissos sociais
e culturais, na busca da construção de conceitos que falem a respeito
do real e que contribuam para sua perpetuação ou transformação.
Diante de uma política cultural que investe na alienação,
somos impelidos para a busca de opções teóricas que fundamentem
a prática de resistência. Como assinala Paulo Freire (1989), para
escapar do anonimato nivelador da massificação, torna-se
necessário captar os grandes temas da atualidade, sem, no entanto, negar
a experiência adquirida historicamente, mas reelaborando essa experiência
de acordo com as novas tendências históricas e culturais emergentes.
Diante disto, somos levados a indagar sobre o papel da educação,
na formação de um novo sujeito, de um sujeito agente de sua própria
história.
A
Educação e o Compromisso de Formação do Sujeito
A educação, enquanto prática social que atua no sentido
da promoção e desenvolvimento de determinado projeto de sociedade,
encontra-se envolvida com os interesses tecnológicos da sociedade que
ela atende. Os sistemas de poder político constituído coordenam
as estruturas educacionais para esta finalidade, estabelecendo normas administrativas,
objetivos pedagógicos, prioridades curriculares. Entretanto, estes interesses,
com freqüência, esbarram-se em processos de resistência que
insinuam novas tendências culturais e vocações sociais,
pois, se a educação não é uma prática autônoma
do contexto social e histórico, muito menos é autômata,
ou seja, é agenciada pelos sujeitos que a realizam cotidianamente. Por
mais eficientes que sejam os sistemas de controle social, a educação,
a comunicação de massa, a ciência, as instituições
terapêuticas, os hospitais etc. (Foucault, 1986), a ação
dos sujeitos intervêm neste processo, ora reforçando-o, ora bloqueando
o seu desenvolvimento.
Foucault (1986) já havia alertado para a utilização da
educação, por parte do poder hegemônico, na normalização
dos comportamentos. Desde a forma como são dispostos os alunos em sala
de aula (em fileiras), permitindo maior controle e vigilância, até
à maneira acrítica como são trabalhados os conteúdos,
contribuem para o estabelecimento do poder disciplinar. Muitas vezes, adotamos
uma postura submissa diante das deliberações técnicas,
sem, no entanto, questionarmos a que interesses encontram-se vinculadas, já
que, de alguma forma, representam a autoridade. Resta-nos, então, questionarmos
o sentido da autoridade. A autoridade terá que ser exercida de forma
antidemocrática? Em que condições esta autoridade toca
as raias do autoritarismo, que é, sempre, repressivo e limitador das
potencialidades expressivas? Não seria autoritária a prática
pedagógica que rejeita o inesperado, o imprevisível, e que a tudo
e a todos quer controlar? Qual o compromisso desta prática, será
a emancipação ou a opressão?
Segundo H. Souza (1991), uma das condições mais fundamentais da
democracia é o respeito às diferenças, pois a democracia
engloba diferentes formas de relação entre os homens, que se estabelecem
a partir da consideração das diferenças e do diálogo,
e não se limita a ser um espaço institucional da política.
Diante de uma sociedade que visa a todos planificar, determinando o modo como
cada um deve sonhar, trabalhar, divertir-se, amar (Guattari, 1986), os ideais
democráticos ficam ameaçados. Por isto, mais do que nunca, as
diferenças precisam ser realçadas, para que todos possam aprender
o sentido do processo democrático.
Neste particular, os processos e as interações que ocorrem no
âmbito da educação especial poderão trazer contribuições
para o enriquecimento das discussões que vêm movimentando o debate
sobre o compromisso da educação com a formação do
sujeito e do cidadão. Como se situa a pessoa portadora de deficiência,
diante das imposições neo-liberais da nossa sociedade tecnocrática?
Quais as respostas que a educação especial poderá dar para
esta sociedade que desconsidera as diferenças e o próprio sujeito?
Muito freqüentemente, a educação especial assume o projeto
de competitividade e performatividade da proposta social e educacional tecnocráticas,
deixando, assim, de realizar uma das suas mais fundamentais vocações,
qual seja, a de resistência à lógica mercantil/capitalista.
Por exemplo: considerando as especificidades da pessoa portadora de deficiência
visual, quando a prática pedagógica passa a se ocupar com a reprodução
de gestos estilizados, tendo em vista a maior eficiência técnica,
sem, antes, permitir que a experiência seja elaborada organicamente, a
partir da vivência subjetiva, passa a mecanizar a ação educativa,
bloqueando, assim, a possibilidade de manifestações autênticas,
que caracterizam os processos de resistência. O controle gestual sobre
o educando obstaculiza novas formas de relação com a experiência
vivida e novas configurações de sentido. A experiência torna-se
mecânica e estilizada, e deixa de funcionar como referência
para criação de modos de organização do cotidiano
(Rolnik, 1986: 38). Da mesma forma, quando o educador traz soluções
prontas para as equações pedagógicas, sem instaurar a dúvida
e a vontade de questionar, bloqueia a curiosidade, fator fundamental para aquisição
e construção do conhecimento.
O exercício da imaginação, o gosto pelo virtual constituem,
pois, a matéria prima da ação educativa emancipatória.
Assim sendo, a prática pedagógica não deveria se limitar
à expressão discursiva, posto que outras formas de expressão
não representáveis verbalmente, que se realizam a partir da experiência
direta com o sentido (não-simbolizável), podem dizer mais a respeito
do homem e de suas ações do que os conteúdos da linguagem
limitadora do discurso.
Colocar o seu eu no centro de toda realização que cada um venha
a efetuar e saber-se autor do seu projeto de ação constitui, segundo
Pierre Vayer e Pierre Toulouse (1985), elemento básico de todo processo
de aprendizagem, seja motor ou intelectual. Dessa forma, o educador exerce mais
a função de agente, estimulador, provocador do processo educacional,
mas tão agente quanto o educando, que processa, de modo singular, as
informações e estímulos, podendo dar um novo sentido e
uma nova direção aos elementos da prática, desde que o
sentido da ação seja o resultado da construção de
cada um e do coletivo. A socialização da experiência dependerá
do campo do vivido, ou seja, da qualidade afetiva da comunicação.
E esta comunicação interativa depende, fundamentalmente, da atividade
educacional respeitar e se basear no princípio do prazer. Assim sugerem
Pierre Vayer e Pierre Toulouse (1985):
se pode vivenciar as atividades da classe sem prazer, pode também
vivenciá-las com prazer, pois se sabe que existe prazer quando há
coincidência entre o ego e o desenvolvimento positivo do projeto. E para
que haja correspondência entre a pessoa e o desenvolvimento do projeto
é preciso que essa pessoa o tenha tornado seu, é preciso que o
projeto tenha um significado, seja a curto ou a longo prazo. (p. 133)
Importa reter desta colocação a necessidade de manter o espaço
para novas possibilidades de compreensibilidade da experiência, onde as
formações subjetivas e a imaginação tenham vez.
Este é um aspecto a ser considerado ainda com maior atenção
pela educação especial, pois a pessoa portadora de deficiência
visual vive ainda com mais intensidade o mundo mental, já que para esta
o real está ligado à sensação imaginária.
Uma vez que este mundo imaginário é percebido de forma única,
o aspecto de singularidade está muito presente no modo de ser da pessoa
portadora de deficiência visual, e deve ser preservado e explorado pela
educação especial. Podemos dizer que este é um elemento
de fundamental importância para todo processo pedagógico e uma
valiosa contribuição da educação especial para o
debate sobre educação emancipatória.
A Linguagem como Forma Emancipatória do Sujeito
A singularização, definida por Guattari (1986) como formações
subjetivas que reservam, na medida do possível, autonomia em relação
às visões dominantes, constitui, portanto, fator decisivo para
criação de processos de resistência. Como indica Deleuze
(1986), a utopia é necessária para construção de
uma nova realidade, pois o que é de âmbito da teoria, como aspiração,
pode tornar-se realidade. E o que é uma utopia, senão a força
da imaginação, na visão de uma nova realidade? E o que
seria do conhecimento, se não fosse a utopia, a capacidade de imaginar
como as coisas poderiam ser? Neste sentido, o conhecimento é invenção,
ou seja, é construção de elementos conceituais que visam
ultrapassar o domínio do factual, captando intenções e
projetando novas condições de possibilidade para a realidade.
Esta dimensão de criação, invenção, do conhecimento
requer não apenas um pensamento conceitual elaborado a priori da experiência,
mas, sobretudo, um pensamento que seja a expressão dinâmica do
cotidiano. A partir dos significados, das carências, das interações,
das descobertas, enfim, das particularidades da vida do indivíduo e do
grupo, surgem as possibilidades de representação autêntica
de si mesmo e do mundo. Assim sendo, as diferentes dimensões e práticas
de linguagem presentes na constituição do homem indicam a própria
condição de possibilidade da ação pedagógica
emancipatória.
Já que o processo educacional emancipatório caracteriza-se pela
possibilidade de transformação das visões de mundo do educando
e, também, do educador, implicando a articulação de um
pensamento e um comportamento mais criterioso em relação às
forças que o determinam, uma ação pedagógica que
desconsidera o universo simbólico que constitui a linguagem e, portanto,
o próprio modo de ser do homem, torna-se frágil para captação
dos problemas que submetem o sujeito a condições de alienação
política e cultural. Portanto, o movimento de reflexão e crítica
é essencial para emancipação do sujeito, pois permite a
tomada de consciência das forças que o submetem a investir em determinados
comportamentos, e não em outros, que o induzem a pensar de determinado
modo, que direcionam seus desejos, e aspirações, mas não
garantem efetivamente a transformação. O processo de transformação
está relacionado à capacidade de sonhar, de construir utopias.
Então, os processos de singularização não se restringem
à linguagem formal, que se regula pelos limites da gramática e
da língua, mas dependem, em grande medida, das produções
simbólicas que antecedem o ato da fala. Assim, se de um lado o
homem pode realmente dispor da palavra, de outro é a palavra que dispõe
dele, digamos que, pela linguagem, o homem é disposto no real (Bornheim,
1977:3). O discurso vem carregado de significados constituídos histórica
e socialmente, mas, antes da mais íntima palavra, já somos atravessados
pela linguagem (Foucault, 1992). Isto porque valores, sentimentos, condicionamentos
sociais, concepções de mundo, servem-se das palavras, e as palavras
abrigam este campo oculto, dando rigor e sentido à fala. A linguagem
transita, então, entre o que se mostra através das palavras e
o indizível. Ainda que este universo simbólico esteja impregnado
de significados que independem do sujeito, a inserção do sujeito
no mundo não se subtrai à subjetividade. Portanto, a linguagem
que pode dar conta das esferas existenciais do sujeito, certamente não
é a linguagem formal, disseminada pelos meios técnicos oficiais,
seja gestual ou discursiva, mas uma forma de linguagem que expresse de modo
singular os sentimentos e as sensações do sujeito em relação
a si próprio, ao outro e ao mundo que o cerca.
Isto não significa, entretanto, que a educação deva se
furtar à linguagem discursiva, mas que deve estar aberta para outras
dimensões de linguagem, favorecendo sua articulação. Significa,
então, que o processo de construção do conhecimento não
resulta de fenômenos exclusivamente intelectuais, discursivos, mas que
imprescinde da participação do sujeito como um todo, de seus afetos,
suas emoções, suas simpatias. Como fala Rubem Alves (1984), sem
paixão não há conhecimento, e podemos acrescentar: sem
conhecimento não há sujeito, apenas fantoches. Este parece ser
o grande desafio da educação (e, evidentemente, também
da educação especial), qual seja, a articulação
das diferentes dimensões de linguagem num processo dinâmico de
interação entre crítica e criação, conhecimento
e compromisso político, razão e emoção, na formação
de um novo sujeito.
Considerando que o processo de construção e socialização
do conhecimento constitui elemento fundamental para o processo de democratização
da sociedade (Souza, H., 1991), precisamos pensar, permanentemente, os conceitos
e as perspectivas de conhecimento que possam contribuir para a construção
da cidadania da pessoa portadora de deficiência visual, enquanto sujeito
de suas representações sociais e autor de sua história.
Um conhecimento que venha afirmar a condição de cidadania da pessoa
portadora de deficiência visual deve partir da experiência vivida,
buscando manifestações de linguagem que sejam a expressão
da sua identidade, reforçando a capacidade de resistência às
visões dominantes, que passam a idéia de que a cidadania é
algo que se recebe do poder político constituído, e não
um processo de conquista sempre em marcha. Neste sentido, o desafio que se impõe
à educação especial refere-se não apenas à
instrumentalização do educando para o exercício profissional,
mas, fundamentalmente, para a capacidade de afirmação da sua condição
de cidadão. Para tanto, torna-se necessário que o conhecimento
seja, antes de tudo, um processo de busca de identidade do sujeito a partir
da transformação e afirmação das suas visões
de mundo e de si mesmo.
Márcia Fernandes Bartholo professora de Educação Física pela UFRJ e Mestra em Educação pela UERJ
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Fonte: Extraído da revista Benjamin Constant número 02 - janeiro de 1996 - publicação técnico científica do Centro de Pesquisa, Documentação e Informação do Instituto Benjamin Constant (IBCENTRO/MEC).