| A criança visualmente incapacitada |
Nota do Editor:
Este examinará as necessidades específicas da criança em idade pré-escolar e tecerá considerações especiais para educadores e pais de crianças com visão subnormal.
Os bebês buscam os estímulos e as respostas de seu ambiente desde
as primeiras horas após o nascimento. Tipicamente, eles procurarão
o novo e o diferente, enquanto demandam respostas dos outros. Assim, a importância
de um ambiente estimulante deve ser enfatizada, porque, só nesse tipo
de ambiente, os bebês começam a ser dar conta de sua capacidade
de agir sobre seu mundo.
Os pais devem ser ajudados a perceber que a criança visualmente incapacitada
é perceptiva, tem habilidades de aprendizado, e que precisa de retorno
e de estimulação desde seus primeiros momentos. Dentro de algumas
semanas depois do nascimento, a criança começa a reconhecer traços
faciais da mãe que a alimenta. Quando a mãe fala com o bebê
durante a amamentação, este relaciona as feições
dela com sua da voz e começa a desenvolver a sociabilidade ligada à
amamentação. O manuseio afetuoso, (que inclui abraçar gentilmente,
acalentar, dar palmadinhas e o embalar, bem como uma voz suave e calma), é
decisivo para a manutenção de uma atmosfera positiva na relação
dos pais com o bebê.
Se a criança tem visão, a distância dentro da qual a mesma
é visualmente estimulada pode ser determinada movendo-se objetos fortemente
coloridos em direção à criança, até que esta
demonstre, através de seu comportamento, ter percebido o objeto. Os pais
podem ajudar a estimular o uso da visão pela criança, segurando
objetos dentro dessa distância. A estimulação visual é
importante, porém, o excesso pode ser tão prejudicial quanto a
falta da mesma. Se forem usados móbiles, os mesmos devem ser usados por
curtos períodos e então retirados. Os móbiles deverão
ser trocados com freqüência e podem ser feitos a partir de vários
materiais domésticos. Grandes imagens de rostos humanos podem ser colocadas
dentro da distância em que a resposta visual foi observada. Em alguns
berçários para prematuros estas são colocadas dentro das
incubadoras ou berços.
ESTIMULAÇÃO
CINESTÉSICA/VESTIBULAR Cinestesia é definida como o sentido pelo
qual são percebidos o movimento, o peso e a posição dos
músculos. O aparato vestibular é o órgão sensor,
no ouvido, que detecta sensações relacionadas com orientação
e equilíbrio. A estimulação cinestésica e vestibular
é reconhecida como sendo extremamente importante desde antes do nascimento
até a primeira infância e continua importante pelos sucessivos
estágios de crescimento até a idade adulta.
Desde os primeiros movimentos de balanço da mãe carregando o feto
até experiências posteriores nos primeiros programas de educação,
a estimulação vestibular pode ser gerada de várias maneiras
e numa grande variedade de posições. Embalar o bebê gentilmente,
de um lado para outro, gera a estimulação apropriada (Kiss, 1976).
Uma luz colocada acima da cabeça fornecerá um ponto de fixação
visual para a criança. A posição sentada é a melhor
para crianças com paralisia cerebral. A interação entre
o sistema vestibular e o cinestésico é extremamente importante
para o desenvolvimento da orientação visual e o alinhamento dos
olhos (Padula, 1980).
Durante o desenvolvimento das crianças elas irão progressivamente
dos braços da mãe para móveis de balanço, isto é,
redes e cadeiras de balanço, para balanços, carrosséis,
e para experiências de movimento cada vez mais sofisticadas quando entrarem
no programa escolar de educação física.
EFICIÊNCIA VISUAL
Um Continuum
Poucos diagnósticos de diminuição da capacidade visual
dizem qualquer coisa sobre a eficiência visual da criança, com
exceção daqueles que indicam cegueira total por enucleação
(retirada de um olho). Isto se dá porque as medições de
acuidade não descrevem as habilidades funcionais e de desenvolvimento.
Uma criança de 5 anos com diminuição da capacidade visual
e que não responde satisfatoriamente a um teste padrão de acuidade
(consistindo na descrição de uma figura) ou a um teste de orientação
isual (directional eye testing) p o d e e s t a r inapropriadamente diagnosticada.
A criança em questão pode estar apresentando um atraso em seu
desenvolvimento e não ter ainda desenvolvido as habilidades visuais relacionadas
com a tarefa apresentada no teste.
Fisicamente, o sistema de visão do bebê não está
maduro por ocasião do nascimento, embora se desenvolva rapidamente durante
os primeiros seis meses. Enquanto a criança desenvolve as habilidades
visuais para dominar o ambiente através da visão, os seus componentes
funcionais amadurecem. Como no caso do sistema auditivo, o bebê não
tem a habilidade de controlar o que quer ver e ouvir. As habilidades perceptivas
da criança levam-na à maturidade do desenvolvimento. Funcionalmente,
como no caso dos mecanismos do sistema auditivo, os olhos estão fisicamente
desenvolvidos por ocasião do nascimento. Por exemplo, os olhos no nascimento
são capazes de ver 20/20, no entanto, porque a criança ainda não
desenvolveu as experiências necessárias para a detecção
desse tipo de detalhe, a acuidade de 20/20 não está presente.
O mesmo se aplica à habilidade de acompanhamento (que quer dizer habilidade
de acompanhar visualmente um objeto). O controle motor dos olhos para produzir
um movimento de acompanhamento suave só pode ser desenvolvido depois
de a criança ter sido capaz de desenvolver as habilidades visuais de
controle das relações de figura-fundo, das relações
visuais entre periferia e centro, a constância de percepção,
etc. Para acompanhar um objeto em movimento, por exemplo, a criança deve
ser capaz de prestar atenção central ao objeto (figura) e não
se deixar distrair do fundo. Os movimentos dos olhos são, portanto, coordenados
controlando-se essas habilidades perceptivas em conjunto com os movimentos dos
músculos dos olhos. Isto está acima das habilidades possuídas
pelo recém-nascido. O recém-nascido responde à estimulação
visual periférica. Isto significa que o desenvolvimento do processamento
visual central, do tipo que envolve habilidades de atenção visual
e motora, ainda não está completo. Assim, a criança será
estimulada visualmente a movimentar-se na periferia do seu campo. Se a criança
olhar diretamente para um objeto em movimento, a fixação é
perdida porque essa habilidade de fixar a visão em um objeto ainda não
se desenvolveu. Bebês acompanharão um objeto muito bem quando o
mesmo for mantido na periferia e à frente de seu ponto de fixação
central. Da mesma maneira, a acomodação (foco para a visão
de perto), acuidade, etc., melhorarão na medida que a criança
desenvolva esses controles visuais através da experiência.
O recém-nascido fixará a visão por breves períodos
de tempo em áreas de grande contraste. Uma luz de teto, sombras e contornos
gerais estimulam a fixação porque a criança é capaz
de controlar formas rudimentares de experiências perceptivas para explorar
visualmente e manipular detalhes simples. A medida em que a criança amadurece,
a fixação em objetos mais detalhados ocorre por causa do amadurecimento
do processamento visual que leva ao controle motor.
Durante os primeiros meses a criança deverá ter desenvolvido o
uso binocular da visão e com o tempo começa a acomodar e observar
objetos a pequenas distâncias. Ao final do primeiro ano, a criança
deverá ser capaz de relacionar a audição com visão
e será capaz de localizar visualmente sons dentro do aposento.
DESENVOLVIMENTO
MOTOR
O desenvolvimento sensorial da criança é fortemente apoiado pelos
componentes motores. Experiências sensoriais de visão, audição,
toque, etc., provêem da combinação de informações
recebidas pelos sentidos com a ação motora. Assim, as experiências
sensoriais da criança ganham sentido para serem armazenadas e usadas
mais tarde em combinações de informação de mais
alto nível.
MOTOR VISUAL
A forma mais primitiva de experiência perceptiva é a percepção
das relações figura-fundo. No momento em que o bebê abre
seus olhos e fixa a visão em um objeto ele está prestando atenção
em um aspecto do ambiente e deixando todo o resto se distanciar como fundo.
As relações de figura-fundo formam a base de todas as outras formas
de percepção. A ação motora, através do movimento
e do toque, reforça a atenção visual da criança
permitindo, assim, que ela explore e manipule o ambiente. Enquanto a criança
usa o movimento e o toque para desenvolver relações de dimensão
horizontal e vertical, são desenvolvidos a percepção de
forma e a constância perceptiva. Através de movimentos oculares
na horizontal e vertical, movimentos manuais e das pernas, o bebê experimenta
as linhas e formas que vê e toca.
Na medida em que a criança desenvolve maior controle motor e perceptivo,
os olhos se juntarão às mãos para explorar melhor o ambiente
tridimensional. A interação de mãos e olhos inicia o longo
processo de refinamento do controle motor fino. A visão lidera nesse
processo. Essa interação entre mãos e olhos permite que
a criança desenvolva níveis mais altos de percepção
e reconhecimento de formas, da mesma maneira que o sistema motor a capacitou
a estabelecer a experiência visual de forma e direção. Aos
dez meses a criança segurará fortemente um objeto com as mãos,
olhará para ele e o levará à boca, porque, para o bebê,
as primeiras experiências foram originadas pela ação oral.
No segundo ano de vida, a criança simplesmente observa o objeto enquanto
o manuseia. Neste estágio, a visão foi previamente combinada através
do motor e foi educada para discernir a um novo nível.
REFORÇO
SENSÓRIO-MOTOR
Quando a diminuição da capacidade visual interfere no desempenho
normal da criança, se torna necessário estruturar situações
de aprendizagem para que ela use outros sentidos, e o sistema motor, para reforçar
a visão. Desta maneira a dificuldade em estabelecer uma experiência
de aprendizado causada pela deficiência visual será minimizada
pelo reforço multi-sensorial.
O tátil (toque) e o cinestésico (consciência da posição
dos músculos) são muito importantes para o desenvolvimento de
experiências significativas em todas as crianças. Aquelas com deficiência
visual, particularmente, se beneficiarão de situações de
aprendizagem que lhes permitam tocar e manipular coisas, enquanto são,
ao mesmo tempo, encorajadas a usar sua visão residual. O entendimento
visual do objeto ou situação será reforçado pela
experiência tátil. Por exemplo, aprender a contar ou aprender um
processo matemático, como a adição e a subtração,
com o uso de objetos como blocos ou bolas-de-gude permitirá à
criança sentir tatilmente os objetos enquanto também os observa
visualmente. Onde, inicialmente a criança pode ter tido dificuldade em
entender o processo matemático visualmente, (possivelmente devido à
deficiência), a experiência tátil reforçará
as habilidades visuais.
O sistema cinestésico permite à criança deficiente da visão
desenvolver um entendimento visual do entorno espacial. O entendimento
das distâncias, o desenvolvimento do timing (senso de oportunidade relativo
à escolha do momento e do tempo de duração de alguma ação)
e da coordenação para as crianças visualmente deficientes
são estabelecidos pela combinação de informações
recebidas através do movimento (o sistema cinestésico) e do processo
visual. Por exemplo, o recém-nascido não entende distância
e espaço visualmente até que possa combinar alguma outra informação
recebida de outro sistema. Quando a criança desenvolve a capacidade de
engatinhar pelo chão até o outro lado do aposento ou localizar
e discernir um som vindo de um ponto distante, essas informações
são combinadas com o que a criança vê. Por sua vez, a criança
estabelece uma experiência que pode ser aplicada a novas situações
de aprendizagem, de forma que a criança eventualmente atribuirá
um significado ao que vê.
Exemplos - Para desenvolver a combinação de experiências
sensoriais e motoras, é em primeiro lugar desejável deixar que
a criança se torne mais consciente dos processos tátil e cinestésico
separadamente. Pode-se desenvolver atividades tais como fazer a criança
sentir a diferença entre quente e frio, tépido e fresco. Isto
pode ser feito através do toque em vários recipientes com diferentes
temperaturas. (Deve-se tomar o cuidado de não deixar a criança
tocar um recipiente que esteja tão quente a ponto de provocar queimaduras
ou dor). Outra atividade para despertar a consciência tátil consiste
em colocar objetos em um saco e deixar a criança diferenciá-los
e identificá-los pelo toque.
Fazer com que a criança experimente objetos de diferentes pesos desenvolverá
sua consciência cinestésica, como também as atividades que
envolvam movimento e equilíbrio. Por exemplo, equilibrar-se sobre um
só pé com os olhos fechados ou fazer a criança formar uma
letra do alfabeto ou algarismo usando todo seu corpo, desenvolverá a
consciência do sistema cinestésico.
Na medida em que a criança desenvolve essas habilidades, atividades podem ser criadas para combinar informações sensório-motoras. Atividades tais como desenhar letras em uma caixa com areia no fundo, permitirão, que a criança combine informações táteis, cinestésicas e visuais. Chutar uma bola de cores vibrantes por um trajeto com obstáculos; esforçar-se para tocar uma luz que é movida para diferentes posições; e jogar um saco de feijões em um objeto no outro lado do aposento são todas atividades pelas quais a criança combina informação para ganhar experiência. Estes são apenas alguns exemplos de atividades. Os pais são incentivados a serem criativos e desenvolverem atividades que poderão ser mais apropriadas às habilidades e necessidades da criança.
Fonte: Extraído da revista Benjamin Constant número 03 - maio de 1996 - publicação técnico científica do Centro de Pesquisa, Documentação e Informação do Instituto Benjamin Constant (IBCENTRO/MEC).