| Braille |
LOUIS
BRAILLE
SUA VIDA E SEU SISTEMA
Edison
Ribeiro Lemos
Jonir Bechara
Cerqueira
Jurema Lucy Venturini
Terezinha Fleury de Oliveira Rossi
2ª edição, revisada e ampliada
Edição
Comemorativa
190 Anos do Nascimento de Louis Braille

Fundação
Dorina Nowill para Cegos
São Paulo - Brasil
1999
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO | INTRODUÇÃO À PRIMEIRA EDIÇÃO | LOUIS BRAILLE | O SISTEMA BRAILLE | O SISTEMA BRAILLE NO MUNDO | O SISTEMA BRAILLE NA LÍNGUA PORTUGUESA | O SISTEMA BRAILLE NO BRASIL | COMISSÃO BRASILEIRA DO BRAILLE | PORTARIA Nº 319 DE 26/02/1999 | MEMBROS DA COMISSÃO BRASILEIRA DO BRAILLE | BIBLIOGRAFIA
"LOUIS BRAILLE, SUA VIDA E SEU SISTEMA" é obra destinada a marcar os grandes momentos comemorativos do genial inventor e de sua maravilhosa contribuição para as pessoas cegas de todo o mundo.
Lançada em 1975, sua primeira edição homenageava os cento e cinqüenta anos de uso do Sistema Braille no mundo.
Esta segunda edição, revista e atualizada, insere-se nos eventos comemorativos dos cento e noventa anos do nascimento de Louis Braille, como uma das mais efetivas homenagens levadas a efeito no Brasil.
Fonte de estudo, consulta e pesquisa, afirmou-se, durante estes vinte e quatro anos, como verdadeira obra de referência editada no Brasil sobre a matéria.
Sua leitura torna-se indispensável para os usuários do Sistema Braille e para todos os profissionais que, de algum modo, estejam ligados à educação, à reabilitação e à profissionalização das pessoas cegas em nosso país.
Julho
de 1999
Jonir Bechara Cerqueira
Presidente do Conselho Brasileiro
para o
Bem-Estar
dos Cegos
René Maheu, diretor geral da UNESCO, numa mensagem de abertura do Ano Internacional do Livro, escreveu: "O livro como um instrumento de uso diário, um meio para desenvolvimento do caráter, ou um veículo para lazer e repouso, é parte vital para uma vida feliz e dignificada".
Esses três usos do livro, fundamentais para todas as pessoas, incluem também aquelas com deficiência visual.
Através da leitura, as pessoas podem adquirir os conhecimentos básicos e o aperfeiçoamento que as capacitam a tornar-se membros integrantes da sociedade. É também através do livro que a pessoa acompanha a evolução literária e científica, amplia seus conhecimentos e formação. É o livro que fornece os elementos necessários ao desenvolvimento da imaginação e à abertura de novas perspectivas.
A importância e a necessidade do livro para uso das pessoas cegas preocupou a humanidade através dos tempos e a aplicação dos recursos oferecidos pela evolução tecnológica e científica vem favorecendo a constante ampliação de instrumentos de comunicação para os portadores de deficiência visual.
Porém, entre todos os sistemas de leitura e escrita para cegos inventados desde os primórdios da civilização, o Sistema Braille, criado por Louis Braille em 1825, é o sistema de escrita e leitura que tem substituído com maior eficiência e facilidade a palavra impressa em tinta ou manuscrita.
Esse sistema utiliza o tato como substituto da visão na leitura. A palavra em Braille significa para a pessoa cega o que a palavra em tinta significa para a pessoa que vê.
O Sistema Braille é um meio de comunicação que permite à pessoa cega expressar-se, informar-se e exercitar a estrutura da linguagem, podendo ser usado também pela pessoa cega-surda.
Através do Sistema Braille, as pessoas cegas têm recursos para formar conceitos sobre ortografia e disposições gráficas como sentenças, parágrafos, pontuação, quadros informativos, esquemas, formas, posições e simbologias diversas.
A experiência da leitura visual ou tátil não pode ser substituída pela audição de textos lidos por outra pessoa. Estar apto a escrever os seus pensamentos, em tinta ou em Braille, possibilita à mente humana ter um espelho à sua frente.
A palavra escrita, lida em silêncio ou em voz alta, de acordo com a qualidade e acentuação tônica possibilita à inteligência melhores condições de compreensão de seu conteúdo, proporcionando o máximo de objetividade na solução de um problema.
"Sem livros, os cegos não podem realmente aprender", disse uma vez Louis Braille a seu pai.
Braille teria sido ainda mais correto se dissesse que sem estarem aptos a usar a palavra e outras expressões escritas, as pessoas cegas não poderiam atuar como verdadeiros membros da sociedade.
O progresso da tecnologia e da informática, sem dúvida, beneficiou as pessoas portadoras de deficiências visuais com inúmeros equipamentos e sistemas para acesso à informação, mas o Sistema Braille ainda representa recurso indispensável para a sua formação educacional, cultural e profissional.
São Paulo, 1975
A maioria das pessoas sabe que as pessoas cegas utilizam um sistema especial de leitura tátil e escrita. Mas o que ninguém poderá deixar de saber é que esse sistema tem o nome de seu inventor - Louis Braille - que é hoje profundamente distinguido por sua criação.
A sua história é a de um homem que conseguiu muito lentamente o reconhecimento do valor de sua obra. Durante a maior parte da vida de Louis Braille, seu sistema só foi conhecido na escola onde ele estudou e foi professor.
As pessoas relutaram muito em mudar os métodos insatisfatórios usados para educar as pessoas cegas. Foi somente no fim de sua vida que o uso Sistema Braille começou a expandir-se. E, mesmo assim, a significância de sua realização permaneceu obscura para o mundo durante muitos anos.
Louis Braille nasceu em 04 de janeiro de 1809, na pequena cidade francesa de Coupvray, pertencente ao distrito de Seine-Marne, que se situa a cerca de quarenta e cinco quilômetros da cidade de Paris.
Seu pai, Simon René Braille, era um conceituado seleiro na região e sustentava a família com o fruto de seu trabalho, de maneira simples mas confortável. Sua mãe, Monique Baron, foi uma jovem simples de fazenda que veio a Coupvray para casar-se com Simon em 1792, dezessete anos antes do nascimento de Louis Braille.
O casal teve quatro filhos: em setembro de 1793, Catherine Joséphine; em março de 1795, Louis Simon; em janeiro de 1798, Marie Céline; e, onze anos mais tarde, Louis. Seu pai tinha então quarenta e quatro anos de idade e costumava dizer orgulhosamente do último filho que ele seria o arrimo de sua velhice.
Como todo filho caçula, Louis recebeu sempre profundo carinho de pais e irmãos. Demonstrou desde cedo ser uma criança dócil e inteligente e seu pai acreditava que, quando o filho primogênito deixasse o lar, Louis passaria a ser seu auxiliar no trabalho de seleiro. Logo que deu seus primeiros passos, Louis acostumou-se a brincar na oficina do pai com os pequenos retalhos de couro usados na confecção das selas.
No ano de 1812, não se sabe exatamente em que dia e mês, o pequeno Louis brincava na oficina como de costume. Em dado momento, apanhou um dos instrumentos de retalhar o couro e experimentou imitar o trabalho de seu pai. Ao tentar perfurar um pedaço de couro com uma sovela pontiaguda, aproximou-a do rosto. O couro era rijo e o pequeno forçava para cortá-lo. Em dado momento, a sovela resvalou e atingiu-lhe o olho esquerdo, causando grave hemorragia.
Simon René tomou o garoto nos joelhos e, com a ajuda da filha, lavou o olho machucado, tentando cortar a hemorragia. Uma velha senhora, conhecida por suas curas, preparou e aplicou compressas e conseguiu estancar a hemorragia.
Um pequeno livro intitulado "Medicina Popular", escrito pelo Dr. Leopold Turk, muito conhecido na época, descreve o tratamento dado a um olho ferido, naquele tempo: "O quarto deve permanecer no escuro e o olho deve ser coberto com compressas de água fria. Em caso de hemorragia, aplicações de sanguessugas ao redor do olho, dieta e uma dose de calomelano são o método usualmente empregado neste caso e em todos aqueles nos quais o olho tenha recebido ferimentos sérios".
O médico de Coupvray foi chamado para tratar o menino, mas a sua prescrição também foi inadequada. Não havia medicação positiva para eliminar o centro da infecção. Veio a conjuntivite e depois, a oftalmia. Alguns meses mais tarde, a infecção atingiu o outro olho e a cegueira total adveio quando Louis estava com cinco anos. Seus pais ainda tentaram outros tratamentos. Procuraram consultar um oftalmologista num hospital da cidade vizinha de Meaux, mas todos os esforços foram em vão. A infecção generalizada havia destruído ambas as córneas.
Em 1815, o velho abade que havia batizado Louis Braille morreu. O novo cura indicado, abade Jacques Palluy, tornou-se grande amigo da família. Muito interessado no bem-estar dos seus paroquianos, dedicou especial atenção ao menino cego, que demonstrava vivacidade e inteligência.
Graças ao abade Palluy, Louis Braille pouco a pouco começou a desenvolver sua natureza investigadora e a familiarizar-se com o mundo. O abade levava o menino ao velho presbitério e, no seu interior ou entre as árvores de seus jardins, procurava ensiná-lo. A orientação cristã recebida em sua primeira infância marcou toda sua vida através de seu amor, sua bondade e sua humildade.
Em 1816, o Conselho da cidade de Coupvray realizou um concurso para admitir um professor. O senhor Antoine Brecheret, que contava vinte e um anos de idade, foi admitido por sua reputação moral e formação profissional.
Logo após a chegada de Brecheret, o abade Palluy pediu-lhe que ensinasse Louis Braille. Durante dois anos, o menino freqüentou a escola de Brecheret. Um colega da vizinhança acompanhava-o no caminhou de ida à escola e de volta ao lar.
Louis Braille decorava e recitava as lições que ouvia, demonstrando ao professor sua extrema vivacidade. Brecheret logo constatou sua inteligência brilhante. O abade Palluy preocupava-se sempre com o seu futuro. Como orientá-lo quando crescesse? Como cuidar de sua educação?
Um acontecimento precipitou a solução. No ano de 1817, por ordem do prefeito, um novo método de ensino foi experimentado em várias escolas. Antoine Brecheret descobriu nele vários defeitos pedagógicos e recusou-se a adotá-lo, comunicando sua decisão ao Prefeito de Coupvray. Em resposta, o prefeito proibiu-o de continuar lecionando em Coupvray e transferiu-o, temporariamente, para estudar o método na cidade de Melun.
Ao retornar, em 1818, Brecheret introduziu o novo método em Coupvray com resultados satisfatórios. Entretanto, o abade Palluy não mostrou entusiasmo pelo método, influenciando os alunos a transferirem-se para a escola da cidade vizinha, onde o ensino era tradicional.
Os pais de Louis Braille, preocupados com a situação, pediram ao abade que encontrasse uma solução para a educação de seu filho. O abade Palluy começou, então, a procurar uma escola para Louis.
Antoine Brecheret, durante seus estudos em Paris, tinha ouvido falar de uma instituição para cegos. Interessado nisso, o abade Palluy procurou o marquês d'Orvilliers, que era latifundiário na região e reconhecido por sua grande generosidade.
O marquês ouviu o abade com muita atenção, pois ele conhecia o menino. Lembrou-se também que em 1786, na corte de Versalhes, Valentin Haüy apresentou ao rei e à rainha um menino cego educado por ele. Ele próprio havia encorajado e auxiliado Haüy no seu projeto de fundar a primeira escola para cegos em Paris. O rei e a rainha destinaram fundos para criar o Instituto Real para Jovens Cegos de Paris.
O marquês concordou, então, em dar sua proteção ao menino e escreveu ao diretor da instituição para pedir sua admissão. O abade relatou esse fato aos pais de Louis, que preocuparam-se com a possibilidade de ter seu filho longe de casa. Mas, quando perceberam as vantagens que ele teria em sua educação, fizeram milhares de planos para o futuro do filho. Logo receberam uma carta do Dr. Guillié, diretor do Instituto Real para Jovens Cegos, comunicando que a diretoria da escola havia decidido admitir Louis Braille. Ele tinha recebido uma bolsa de estudos e sua entrada estava marcada para 15 de fevereiro de 1819.
Na madrugada desse dia, Louis partiu com seu pai com destino a Paris e, quatro horas mais tarde, entrava na instituição. Uma nova vida começava para ele.
O senhor Demeziere, que aguardava na entrada, levou pai e filho à presença do diretor, Dr. Guillié, que descreveu-lhes como seria a vida na escola. Simon René Braille despediu-se de seu filho, voltando a Coupvray.
Pouco a pouco, Louis Braille, que era então o mais jovem estudante, foi se ajustando à escola, aos professores, aos supervisores e aos colegas.
O método de ensino consistia em fazer os alunos repetirem as explicações e textos ouvidos. Alguns livros escritos no sistema de Valentin Haüy, método oficial de leitura para cegos, permitiam leitura suplementar. Apesar de em pequeno número, esses livros eram os únicos existentes.
Louis Braille era um ótimo estudante e dedicou-se profundamente aos estudos. A recreação era parte importante na vida da escola e Louis participava com entusiasmo. Gostava de música clássica e, como os professores do conservatório vinham dar aulas gratuitas no Instituto, dedicou-se ao estudo de música, que consistia em ouvir e repetir o que era ouvido. As condições não eram ideais, mas Braille tornou-se um excelente pianista e mais tarde talentoso organista da igreja de Notre Dame des Champs.
O Dr. Guillié mostrou ao pai de Louis apenas o lado bom da escola, pois a situação financeira era catastrófica. As instalações, úmidas e frias, eram completamente inadequadas. A disciplina era extremamente rígida e os alunos recebiam desde punições físicas até o isolamento a pão e água. Louis Braille não escapou às punições.
Apesar de todas as dificuldades, no fim do período escolar, Louis recebeu um certificado de mérito por sua habilidade em cortar e fazer chinelos e pôde então voltar para seu lar, onde permaneceu dois meses de férias. Foi uma alegria rever seus pais, falar de seus estudos, dos novos amigos, rever também o abade Palluy, o Sr. Brecheret e o marquês d'Orvilliers.
No reinício das aulas, em outubro, Louis dedicou-se ainda mais aos estudos, alcançando sempre mais progressos.
No início de 1821, o Dr. Guillié foi demitido da instituição, assumindo o cargo o Dr. Pignier, que se tornou um grande amigo e incentivador de Louis Braille.
Em 21 de agosto de 1821, Braille participou emocionado dos preparativos e da homenagem prestada a Valentin Haüy, fundador do Instituto. Nessa ocasião, estiveram juntos o fundador da primeira escola para cegos na França e o futuro inventor de um sistema de leitura tátil e escrita para cegos.
As dificuldades enfrentadas por Louis Braille em seus estudos o levaram desde cedo a preocupar-se com a necessidade de um sistema de escrita, e o interesse de outras pessoas, como Barbier, ofereceu-lhe uma série de circunstâncias para que criasse o seu sistema.
Charles Barbier de La Serre, Capitão de Artilharia do Exército de Luís XIII, encontrava dificuldades em transmitir ordens durante a noite. Elaborou, então, um sistema de sinais em relevo que, combinados, permitiam a transmissão das ordens militares. Assim, no escuro, os subordinados decifravam pelo tato as ordens superiores. Esse sistema, que se denominou "escrita noturna", consistia na combinação de pontos e traços em relevo que significavam ordens como "Avance!", etc.
Com essa experiência, Barbier pensou na possibilidade de seu processo servir para a comunicação entre pessoas cegas. Transformou-o então num sistema de escrita para cegos que denominou "grafia sonora".
Através da grafia sonora, qualquer sentença podia ser escrita, mas como o sistema era fonético, as palavras não podiam ser soletradas. Um grande número de sinais era usado para uma única palavra, o que tornava a decifração demorada e difícil. Foi esta fase de sua invenção que Barbier apresentou no fim do ano de 1820 para o Dr. Guillié. Este considerou o sistema muito complicado e desencorajou Barbier que, entretanto, prometeu voltar.
Porém, em sua nova visita ao Instituto, Barbier foi recebido pelo novo diretor, Dr. Pignier, que também resistiu por considerar o sistema complicado. Mas na segunda visita de Barbier, alguns dias mais tarde, ele prometeu submeter o sistema aos seus professores e alunos. Todos mostraram-se muito interessados, experimentaram ler palavras e deram opiniões. Alguns acharam complicado, mas todos concordaram em que o sistema deveria ser adotado.
Na semana seguinte, Barbier recebeu uma carta comunicando que o sistema seria adotado no Instituto como método auxiliar de ensino.
Louis Braille rapidamente aprendeu a usar o sistema. Nas horas vagas, ele e seu amigo Gauthier praticavam, lendo e escrevendo sentenças um para o outro. A escrita era possível como o auxílio de uma régua-guia e de um estilete. Adquirindo maior habilidade no uso do método, Braille descobriu seus problemas e começou a pensar em possíveis modificações.
O sistema de Barbier apresentava as seguintes dificuldades: não permitia conhecimento de ortografia, pois os sinais representavam somente sons; não havia símbolos para pontuação, acentos, números, símbolos matemáticos e notação musical; e, principalmente, a complexidade de combinações tornava a leitura difícil e lenta.
Braille propôs alguns aperfeiçoamentos, que foram apresentados a Barbier pelo Dr. Pignier. Barbier foi ao Instituto discutir as modificações e ficou surpreso ao deparar-se com um pálido garoto de cabelos loiros. Apesar de reconhecer o valor das propostas de Louis, Barbier defendeu fervorosamente o fundamento de sua invenção, pois não considerava necessária a ortografia e não queria ver alterações básicas em seu método.
Louis Braille começou a trabalhar num sistema novo que pudesse eliminar completamente os problemas da grafia sonora. Durante muitas noites, trabalhou incansavelmente sobre a régua e o estilete que ele próprio inventou. As férias chegaram e ele voltou ao lar, onde permaneceu estudando o seu novo sistema.
Na reabertura das aulas, em outubro de 1824, Louis Braille tinha prontos os primeiros estudos de sua invenção. E, em 1825, aos quinze anos de idade, inventou o sistema em relevo semelhante ao que se usa hoje e que recebeu o seu nome. Obteve sessenta e três combinações, que representavam todas as letras do alfabeto, acentuação, pontuação e sinais matemáticos.
Apresentou sua invenção ao diretor, Dr. Pignier, que apreciou seu trabalho e autorizou-o a experimentá-lo no Instituto. Os alunos rapidamente adotaram o sistema, que era simples, e o Dr. Pignier começou a pensar na possibilidade de substituir o sistema de Barbier.
Com o sistema de Braille, os alunos eram capazes de tomar notas em classe, aprender ortografia, redigir composições, copiar livros, fazer ditados, corresponder-se entre si, enfim, podiam registrar seus sentimentos e impressões.
Embora continuasse trabalhando em sua pesquisa para aperfeiçoar seu sistema, Louis não negligenciou seus estudos. Foi sempre um dos primeiros alunos. Em 1826, ainda estudante, começou a ensinar álgebra, gramática e geografia. Freqüentou o Colégio de França, estudou órgão e deu aulas de piano.
Em 1827, Louis escreveu em Braille a "Gramática das Gramáticas". Em 1828, continuando seus estudos, ele aplicou seu sistema à notação musical.
Em 1829, apresentou a primeira edição do "Método de Palavras Escritas, Músicas e Canções por meio de Sinais, para uso de Cegos e Adaptados para eles". No prefácio desse livro, Braille refere-se a Barbier: "Se nós temos vantagens de nosso método sobre o seu, devemos dizer em sua honra que seu método deu-nos a primeira idéia sobre o nosso próprio".
Ainda em 1829, Louis Braille foi oficialmente designado professor do Instituto e ensinou gramática, matemática e geografia. Apresentou seu sistema à direção e a professores do Instituto e foi autorizado a ensiná-lo aos alunos, embora a adoção oficial ali no Instituto só tenha ocorrido em 1854. Neste ano, Braille escreveu também outro texto básico: "Gramática de Noiêl y Chaptal".
Um de seus alunos, Coltat, tornou-se um de seus grandes amigos e mais tarde biógrafo, tendo escrito o livro "Notas Históricas sobre Louis Braille" onde narra detalhes de toda sua vida no Instituto.
Louis Braille continuou a viver no Instituto, embora sua vida social tenha sido intensa fora dele. O Dr. Pignier encorajava-o a sair com ele. Louis Braille também era freqüentemente convidado para tocar em festas.
Apesar de sua saúde deficiente, pois contraiu tuberculose aos vinte e seis anos, Braille trabalhou continuamente no aperfeiçoamento de seu sistema. Em 1837, publicou sua "Anagliptografia", estrutura do Sistema Braille utilizada até hoje mundialmente, contendo toda a simbologia para literatura, matemática, canto e simbologia para diferentes instrumentos musicais.
Em 1839, Louis Braille publicou "Novo Método para Representação por Sinais de Formas de Letras, Mapas, Figuras Geométricas, Símbolos Musicais para uso de Cegos". Esse método consistia em escrever as letras na forma convencional, marcando com o punção uma série de pontos em relevo. Para padronizar as dimensões das letras, Braille determinou num quadro o número de sinais necessários para cada letra. Esta nova invenção também foi adotada pelos alunos e Braille chamou-a de "rafigrafia" (grafia pontilhada). O objetivo desse sistema era facilitar a comunicação com videntes. Foucault, seu grande amigo, colaborou no invento, fabricando o rafígrafo.
Entretanto, apesar dos esforços de Braille em aperfeiçoar e desenvolver seu sistema e de sua aceitação pelos alunos do Instituto, o método oficial de ensino continuava sendo as letras em relevo de Valentin Haüy. Muitos conservadores reagiam em abandonar os velhos métodos.
O Dr. Pignier tentou oficializar o uso do Sistema Braille, mas, quando começou esse trabalho, foi substituído pelo Dr. Dufau, que tornou-se diretor do Instituto em 1840. O Dr. Dufau foi contrário à oficialização, dizendo que o Sistema Braille isolava os cegos. O Ministro do Interior da França, a quem coube a decisão final, opinou que os estudos de Braille deveriam ser encorajados, mas que eles não estavam prontos para a mudança do sistema.
Louis Braille tentou também divulgar seu sistema em outros países e, em julho de 1840, escreveu para J. Wilhelm Kleim, fundador da primeira escola para cegos de Viena. Lamentavelmente, Kleim não aceitou o método.
Em 1843, o Instituto Real para Jovens Cegos foi transferido para um prédio novo. Nessa época, o Dr. Dufau já havia mudado seu pensamento, aceitando o sistema de Braille. Assim, na cerimônia de inauguração do novo prédio, Louis Braille ficou profundamente comovido quando seu sistema foi demonstrado publicamente e declarado aceito. Este foi o primeiro passo para a aceitação geral. Desde então, seu uso começou a expandir-se na Europa.
Durante esses últimos anos, a doença de Louis Braille foi progredindo e sua saúde foi se tornando mais frágil. Em 1850, pediu demissão do cargo de professor, mas continuou dando algumas aulas de piano.
Em dezembro de 1851, sofreu uma grande recaída, recolhendo-se ao leito. Faleceu no dia 06 de janeiro de 1852, certo de que seu trabalho não tinha sido em vão. Foi enterrado em sua cidade natal em 10 de janeiro.
Louis Braille não teve o reconhecimento de sua obra por seus contemporâneos, a não ser pelo círculo restrito de amigos. Somente cem anos mais tarde, a história do garoto de quinze anos que inventou um sistema de seis pontos em relevo expandiu-se pelo mundo.
Louis Braille não assistiu, em 1854, à aprovação oficial do uso de seu sistema para o ensino de cegos na França. Não assistiu, também, à adoção universal do Sistema Braille, durante o Congresso Internacional de Surdos-Mudos e Cegos de Paris, realizado em 1877, que o proclamou como o melhor sistema de leitura e escrita para ensino de cegos em todo o mundo.
Em 20 de junho de 1952, o governo francês transferiu seus restos mortais da cidade de Coupvray para o Pantheon Nacional, em Paris. Nessa ocasião, em que tomou o seu lugar entre os grandes homens da França, merecidas homenagens lhe foram prestadas por representantes de quarenta nações.
Ainda em 1952, a casa onde nasceu Louis Braille foi comprada pela Associação Amigos de Louis Braille e transformada em museu municipal para visitação pública. Em 1956, a Associação doou o museu para a União Mundial de Cegos, que criou o Comitê Louis Braille para administrar e levantar fundos para a manutenção do museu.
O Braille é um sistema de leitura tátil e escrita para pessoa cega, que consta da combinação de seis pontos em relevo, dispostos em duas colunas de três pontos. O espaço ocupado pelos seis pontos forma o que se convencionou chamar "cela Braille". Para facilitar a sua identificação, os pontos são numerados da seguinte forma: do alto para baixo, coluna da esquerda: pontos 1, 2, 3; do alto para baixo, coluna da direita: pontos 4, 5, 6.
|
1
|
4
|
|
2
|
5
|
|
3
|
6
|
As diferentes combinações desses seis pontos permitem a formação de sessenta e três símbolos Braille. As dez primeiras letras do alfabeto são formadas pelas diversas combinações possíveis dos quatro pontos superiores (1-2-4-5); as dez letras seguintes são as combinações das dez primeiras letras, acrescidas do ponto 3 e formam a segunda linha de sinais. A terceira linha é formada pelo acréscimo dos pontos 3 e 6 às combinações da primeira linha.
Os símbolos da primeira linha são as dez primeiras letras do alfabeto latino (a-j). Esses mesmos sinais, na mesma ordem, assumem as características dos valores numéricos 1-0, quando precedidos do sinal de número, formado pelos pontos 3-4-5-6.
No ocidente, vinte e seis sinais são utilizados para o alfabeto; dez para os sinais internacionais de pontuação, que correspondem aos dez símbolos da quinta linha, localizados na parte inferior da cela Braille (pontos 2-3-5-6). Os vinte e sete sinais restantes são destinados às necessidades específicas de cada língua (letras acentuadas, por exemplo) e para abreviaturas.
Doze anos após a invenção desse sistema, Louis Braille acrescentou a letra "w" ao décimo sinal da quarta linha para atender às necessidades da língua inglesa.
O Sistema Braille é utilizado por extenso, isto é, escrevendo-se a palavra letra por letra, ou de forma abreviada, adotando-se códigos especiais de abreviaturas para cada língua ou grupo lingüístico. O Braille por extenso é denominado grau 1. O grau 2 é a forma empregada para representar, de maneira abreviada, as conjunções, preposições, pronomes, prefixos, sufixos, grupos de letras que são comumente encontradas nas palavras de uso corrente.
A principal razão do emprego da forma abreviada é reduzir o volume dos livros em Braille e permitir o maior rendimento na leitura e na escrita. Uma série de abreviaturas mais complexas forma o grau 3, que necessita de um conhecimento profundo da língua, uma boa memória e uma sensibilidade tátil muito desenvolvida por parte do leitor cego.
O tato é também um fator decisivo na capacidade de utilização do Braille.
O Sistema Braille aplica-se à estenografia, à música e às notações científicas em geral, através da utilização das sessenta e três combinações para códigos especiais.
O Sistema Braille permite uma forma de escrita eminentemente prática. A pessoa cega pode satisfazer o seu desejo de comunicação. Abre-lhe os caminhos do conhecimento literário, científico e musical, permitindo-lhe, ainda, a possibilidade de manter uma correspondência pessoal e a ampliação de suas atividades profissionais.
COMO O BRAILLE É PRODUZIDO?
O aparelho de escrita usado por Louis Braille consistia de uma prancha, uma régua com duas linhas de retângulos vazados correspondentes às celas Braille - que se encaixa, pelas extremidades laterais, na prancha - e de um punção. O papel era introduzido entre a prancha e a régua, o que permitia à pessoa cega, pressionando o papel com o punção, escrever os pontos em relevo.
Hoje, as regletes, uma variação desse aparelho de escrita de Louis Braille, são ainda muito usadas pelas pessoas cegas. Todas as regletes, quer sejam modelos de mesa ou de bolso, consistem essencialmente de duas placas de metal ou plástico, fixas de um lado com dobradiças, de modo a permitir a introdução do papel.
![]() |
![]() |
A placa superior funciona como a primitiva régua e possui os retângulos vazados correspondentes às celas Braille. Diretamente sob cada retângulo vazado, a placa inferior possui, em baixo-relevo, a configuração da cela Braille. Ponto por ponto, a pessoa cega, com o punção, forma o símbolo Braille correspondente às letras, números ou símbolos desejados.
Na reglete, escreve-se o Braille da direita para a esquerda, na seqüência normal de letras ou símbolos. A leitura é feita normalmente da esquerda para a direita. Conhecendo-se a posição dos pontos correspondentes a cada símbolo, torna-se fácil tanto a leitura quanto a escrita feita em regletes. A escrita na reglete pode tornar-se tão automática para o cego quanto a escrita com o lápis para a pessoa de visão normal.
Além da reglete, o Braille pode ser produzido através de máquinas especiais de datilografia Braille, que contêm seis teclas para representação do símbolo. O papel é fixado e enrolado em rolo comum, deslizando normalmente quando pressionado o botão de mudança de linha. O toque de uma ou mais teclas simultaneamente produz a combinação dos pontos em relevo, correspondente ao símbolo desejado. O Braille é produzido da esquerda para a direita, podendo ser lido normalmente sem a retirada do papel da máquina. Existem diversos tipos de máquinas de datilografia Braille, tendo sido a primeira delas inventada por Frank H. Hall, em 1892, nos Estados Unidos.
Hoje, as imprensas Braille produzem livros a partir de matrizes de metal ou formulários contínuos, utilizando máquinas eletrônicas com sistemas informatizados. A impressão do relevo pode ser feita dos dois lados do papel ou da matriz. Esse é o Braille interpontado: os pontos são dispostos de tal forma que a impressão de uma lado não coincide com a impressão da outra face, permitindo uma leitura corrente, um aproveitamento melhor do papel, reduzindo o volume dos livros transcritos.
Novos recursos para a produção do Braille têm sido empregados de acordo com os avanços tecnológicos de nossa era. O Braille, hoje, é produzido por equipamentos e sistemas informatizados.
COMO O BRAILLE É LIDO?
A maioria dos leitores cegos lêem preferencialmente com a ponta do dedo indicador de uma das mãos. Um número indeterminado de pessoas, entretanto, que não são ambidestras em outras atividades, podem ler o Braille com as duas mãos. Algumas pessoas utilizam o dedo médio ou anular, ao invés do indicador. Os leitores mais experientes comumente utilizam o dedo indicador da mão direita, com uma leve pressão sobre os pontos em relevo, o que lhes permite uma ótima percepção, identificação e discriminação dos símbolos Braille.
Este fato acontece somente através da estimulação consecutiva dos dedos pelos pontos em relevo. Essa estimulação ocorre muito mais quando se movimenta a mão ou mãos sobre cada linha escrita num movimento da esquerda para a direita. Alguns leitores são capazes de ler cento e vinte e cinco palavras por minuto com uma só mão. Alguns outros, que lêem com as duas mãos, conseguem dobrar a sua velocidade de leitura, atingindo duzentas e cinqüenta palavras por minuto.
Em geral, a média atingida pela maioria de leitores é de cento e quatro palavras por minuto. É a simplicidade do Braille que permite essa velocidade de leitura. Os pontos em relevo permitem a compreensão instantânea das letras como um todo, uma função indispensável ao processo da leitura.
Para a leitura tátil corrente, os pontos em relevo devem obedecer às medidas padrão e a dimensão da cela Braille deve corresponder à unidade perceptual tátil da ponta dos dedos. Todos os caracteres devem possuir a mesma dimensão, obedecendo aos espaçamentos regulares entre as letras e entre as linhas. A posição de leitura deve ser confortável, de modo a que as mãos dos leitores fiquem ligeiramente abaixo de seus cotovelos.
Inventado em 1825, o Sistema Braille foi empregado inicialmente por Louis Braille e seus alunos no Instituto Real de Jovens Cegos de Paris. Em 1829, a administração do Instituto Real de Jovens Cegos publicou, com a intenção de difundir e divulgar oficialmente o sistema, um livro intitulado "Método de palavras, escritas, música e canções por meio de sinais, para uso dos cegos e adaptados para eles". Uma nova edição desse método foi feita em 1837 com algumas modificações.
O sistema de sessenta e três sinais que conhecemos até hoje foi então codificado. Somente em 1847, entretanto, devido à política interna do próprio Instituto Real, voltou a ser utilizado o Sistema Braille para a impressão de livros por essa instituição, sendo proclamado oficialmente. Em 1854, o Instituto publicou em Braille o primeiro trabalho em língua estrangeira: um livro de leitura em português. Os recursos para essa impressão foram doação pessoal do Imperador do Brasil.
Paris finalmente venceu e outras cidades da França foram seguindo seus passos na medida que as escolas especiais eram criadas nas províncias. A adoção do Sistema Braille na Europa foi mais lenta. Em 1860, foi impresso o primeiro livro em Sistema Braille fora da França, em Lousane, na Suíça. Apesar da incontestável vantagem do Braille, a completa adoção do sistema levou muitos anos.
De 1860 a 1880, o Sistema Braille foi adotado em toda a Europa, em sua forma original, com pequenas alterações devidas às particularidades de cada língua. Mas a luta pela introdução do sistema em outros países fora da Europa esta longe de terminar.
Na América do Norte, o Sistema Braille foi introduzido em 1860, mas houve muita relutância em sua aceitação. Somente em 1918, após quinze anos de trabalho de um comitê especial, a unificação foi possível. O comitê aceitou o Braille francês inicial, restabelecendo a uniformidade não só no próprio país como entre os Estados Unidos e a Europa. Em 1932, foi feito um acordo para o estabelecimento da unificação do Sistema Braille padrão da língua inglesa.
Na Ásia, as primeiras adaptações do Braille às línguas não européias datam do período de 1870 a 1880. O Braille foi adaptado inicialmente às línguas mais conhecidas e toda a honra da introdução do Braille na Ásia, África e nos territórios mais longínquos cabe aos missionários europeus e americanos.
Nos seus postos avançados e isolados, eles procuraram dar atendimento aos cegos que chegavam às missões e, sem premeditação, criaram as primeiras escolas para cegos nessas regiões. Para proporcionar um ensino sistemático, os missionários fizeram o melhor que lhes foi possível para adaptar o Braille aos seus dialetos.
O Braille no Extremo Oriente teve grande dificuldade para ser introduzido. Foi preciso muito esforço e criatividade para condensar os longos alfabetos a fim de exprimir os milhares de ideogramas utilizando as sessenta e três combinações do sistema.
A introdução do Braille foi então sendo feita através das adaptações necessárias a cada língua ou dialeto, de uma forma desordenada. Entretanto, em 1949, a Índia fez um apelo à UNESCO para que essa organização mundial contribuísse de alguma forma positiva para a racionalização do Braille nas diversas partes do mundo.
Os sessenta e dois anos de discussões e estudos sobre as diversas aplicações do Braille foram sem dúvida inevitáveis. Mas, diante dessa solicitação da Índia, o Conselho Executivo da UNESCO reconheceu a importância internacional do problema, decidindo que aquele organismo deveria contribuir ativamente para encontrar uma solução satisfatória tanto aos governos quanto aos cegos de todo o mundo. A UNESCO aceitou o desafio e começou os seus trabalhos sobre o Sistema Braille em primeiro de julho de 1949, terminando-o em 31 de dezembro de 1951.
Em março de 1950, realizou-se a Conferência Internacional de Braille, em Paris. Para essa reunião, foram convidados especialistas em Braille das diversas zonas lingüísticas, especialistas na educação de cegos e dirigentes de imprensas Braille.
Os técnicos convocados pronunciaram-se a favor de um Sistema Braille mundial unificado e estabeleceram os princípios sob os quais esse sistema deveria ser baseado. O estabelecimento do Braille mundial e as modalidades de sua aplicação nas principais línguas constituiu a fase seguinte dos trabalhos.
A Conferência Geral da UNESCO autorizou a convocação de reuniões regionais para a elaboração de um código Braille uniforme aos países de fala árabe como Egito, Iraque, Jordânia, Líbano, Paquistão, Irã e Síria, além de Sri-Lanka, Índia e Malásia. Outras conferências regionais também foram realizadas para a unificação do Braille abreviado para o português e espanhol.
Uma das recomendações da Conferência Geral da UNESCO, da qual participou um delegado da Fundação Dorina Nowill para Cegos, reunida em março de 1950 em Paris, era que fosse criado um Conselho Mundial de Braille para promover a adoção do Sistema Braille unificado para o uso normal e códigos especiais de matemática e música.
O Conselho Executivo da UNESCO, levando em consideração esse pedido, autorizou em outubro de 1951, o funcionamento provisório, sob a forma de um Comitê Consultivo, do Conselho Mundial de Braille diretamente ligado à UNESCO, que passou a funcionar oficialmente em 1952.
A primeira comissão indicada para estuda a criação do Conselho definiu a sua composição, as suas funções e os seus estatutos, propondo também os membros que deveriam fazer parte do mesmo. Atualmente, o Conselho Mundial de Braille faz parte integrante da União Mundial de Cegos, como um de seus comitês.
Todas essas resoluções, explicações e instruções sobre o uso do Braille por extenso e abreviado foram publicadas pela UNESCO em 1954 no livro "A escrita Braille no mundo". Essa publicação encontra-se esgotada. Em 1975, foi indicada uma nova comissão do então Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos para estudar a edição desse mesmo livro, atualizado e revisto.
A música também foi objeto de estudos, a partir de 1929, por ocasião da realização da Conferência Internacional de Braille. Entretanto, foi impossível um acordo total sobre o código de notações musicais. Nova conferência foi organizada pela UNESCO, pela União Mundial de Cegos e pelo Conselho Mundial de Braille, em Paris, em 1954, da qual participou um delegado brasileiro, representante da Fundação Dorina Nowill para Cegos.
Como conseqüência do trabalho dos especialistas reunidos nessa conferência, surgiu o "Manual Internacional de Notações Musicais em Braille". Essa publicação, compilada por H. V. Spanner e publicada pelo Conselho Mundial de Cegos, estabeleceu normas gerais para a transcrição de músicas para o Sistema Braille. Embora não seja de uso universal, a maioria dos países tomam-no como base para a aplicação do Sistema Braille à música, em todos os seus aspectos e para todos os instrumentos musicais.
O SISTEMA BRAILLE NA LÍNGUA PORTUGUESA
O Braille foi adaptado à língua portuguesa em 1880 e o primeiro sistema de abreviaturas, introduzido em 1905, em Portugal.
No Brasil, o Braille da língua portuguesa por extenso foi introduzido na primeira escola para cegos, criada em 1854, o Instituto Benjamin Constant, do Ministério da Educação e Cultura. Essa escola foi a primeira a utilizar o Sistema Braille na América Latina.
O Sistema Braille usado em Portugal e no Brasil é o mesmo, tendo havido para isso a assinatura de diversos acordos entre os dois países. O primeiro deles, promovido pela UNESCO em Montevidéu, em 1951, estabelecia a unificação das abreviaturas grau 2 da língua portuguesa, tendo sido assinado por delegados brasileiros e portugueses e referendado pelo então Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, hoje União Mundial de Cegos.
Entretanto, a introdução das abreviaturas Braille grau 2 da língua portuguesa por parte do Brasil teve de ser reexaminada devido à publicação da Lei nº 4.169 de 04/12/1962, que oficializava as convenções Braille para uso na escrita e leitura dos cegos e o Código de Contrações e Abreviaturas Braille.
Após a publicação dessa lei, os estudos intensivos que continuaram a ser realizados pelas comissões criadas pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, pelo Instituto Benjamin Constant e pela Campanha Nacional de Educação dos Cegos revelaram a necessidade de incluir algumas modificações no Código oficializado pela lei, pois o mesmo impossibilitava o estabelecimento de novos acordos internacionais.
Em 1963, foi realizada uma reunião conjunta Brasil-Portugal e novo acordo foi assinado para uso uniforme das abreviaturas Braille nos dois países. Desde essa data, os estudos continuam através de reuniões periódicas para sua uniformização, adaptando o código de abreviaturas Braille às diretrizes impostas pelos acordos assinados entre os dois países para uso uniforme da língua portuguesa, principalmente no que se refere à ortografia.
As exigências do desenvolvimento atingido pela educação das pessoas cegas no Brasil fez com que as abreviaturas Braille se tornassem objeto de estudo permanente entre Portugal e Brasil. O mesmo tem acontecido com o Código Unificado de Símbolos Matemáticos e Notações Científicas. Esse código, preparado pela equipe da Espanha, tem sido constantemente estudado por todos os especialistas representantes de todos os países de língua espanhola e portuguesa.
A unificação do Código de Matemática e Notações Científicas proporcionará um intercâmbio muito grande entre as imprensas Braille, evitando duplicidade de publicações, e trará enormes benefícios a todos os cegos que falam a língua portuguesa e se utilizam de livros transcritos em códigos especiais para a matemática e obras científicas.
As imprensas Braille do Instituto Benjamin Constant do Ministério da Educação e Cultura e da Fundação Dorina Nowill para Cegos adotaram as mesmas normas e orientações para a impressão de seus livros e revistas, utilizando o Braille unificado para Portugal e Brasil.
Edison
Ribeiro Lemos
Jonir Bechara Cerqueira
(membros da Comissão Brasileira do Braille)
O Sistema Braille, utilizado universalmente na leitura e na escrita por pessoas cegas, foi inventado na França por Louis Braille, um jovem cego, reconhecendo-se o ano de 1825 como o marco dessa importante conquista para a educação e a integração dos deficientes visuais na sociedade.
Antes desse histórico invento, registram-se inúmeras tentativas em diferentes países, no sentido de se encontrarem meios que proporcionassem às pessoas cegas condições de ler e escrever. Dentre essas tentativas, destaca-se o processo de representação dos caracteres comuns com linhas em alto-relevo, adaptado pelo francês Valentin Haüy, fundador da primeira escola para cegos no mundo, em 1784, na cidade de Paris, denominada Instituto Real dos Jovens Cegos.
Foi nesta escola, onde os estudantes cegos tinham acesso à leitura apenas através do processo de Valentin Haüy, que estudo Louis Braille. Até então, não havia recurso que permitisse à pessoa cega comunicar-se pela escrita individual.
Louis Braille, ainda jovem estudante, tomou conhecimento de uma invenção denominada sonografia ou código militar, desenvolvida por Charles Barbier, oficial do exército francês. O invento tinha como objetivo possibilitar a comunicação noturna entre oficiais nas campanhas de guerra. Baseava-se em doze sinais, compreendendo linhas e pontos salientes, representando sílabas na língua francesa. O invento de Barbier não logrou êxito no que se propunha, inicialmente. O bem intencionado oficial levou seu invento para ser experimentado entre as pessoas cegas do Instituto Real dos Jovens Cegos.
A significação tátil dos pontos em relevo do invento de Barbier foi a base para a criação do Sistema Braille, aplicável tanto na leitura como na escrita por pessoas cegas e cuja estrutura diverge fundamentalmente do processo que inspirou seu inventor. O Sistema Braille, utilizando seis pontos em relevo, dispostos em duas colunas, possibilita a formação de sessenta e três símbolos diferentes que são empregados em textos literários nos diversos idiomas, como também nas simbologias matemática e científica, em geral, na música e, recentemente, na informática.
A partir da invenção do Sistema Braille, em 1825, seu autor desenvolveu estudos que resultaram, em 1837, na proposta que definiu a estrutura básica do sistema, ainda hoje utilizada mundialmente.
Comprovadamente o Sistema Braille teve plena aceitação por parte das pessoas cegas, tendo-se registrado, no entanto, algumas tentativas para a adoção de outras formas de leitura e escrita e, ainda outras, sem resultado prático, para aperfeiçoamento da invenção de Louis Braille.
Apesar de algumas resistências mais ou menos prolongadas em outros países da Europa e nos Estados Unidos, o Sistema Braille, por sua eficiência e vasta aplicabilidade, se impôs definitivamente como o melhor meio de leitura e de escrita para as pessoas cegas.
Em 1878, um congresso internacional realizado em Paris, com a participação de onze países europeus e dos Estados Unidos, estabeleceu que o Sistema Braille deveria ser adotado de forma padronizada, para uso na literatura, exatamente de acordo com a proposta de estrutura do sistema, apresentada por Louis Braille em 1837, já referida anteriormente.
Os símbolos fundamentais do Braille utilizados para as notações musicais foram também apresentados pelo próprio Louis Braille na versão final dos estudos constantes da proposta da estrutura do sistema concluída em 1837.
Hoje, a musicografia Braille é adotada uniformemente por todos os países. Para tanto, contribuíram, principalmente, os congressos realizados em Colônia (Alemanha), 1888, em Paris (França), 1929 e, finalmente, num congresso realizado em Nova Iorque, 1954, onde foram adaptados símbolos, de acordo com novas exigências da musicografia.
A aplicação do Sistema Braille à matemática foi também proposta por seu inventor na versão do sistema editada em 1837. Nesta, foram apresentados os símbolos fundamentais para os algarismos, bem como as convenções para a aritmética e para a geometria.
Esta simbologia fundamental, entretanto, nem sempre foi adotada nos países que vieram a utilizar o Sistema Braille, verificando-se, posteriormente, diferenças regionais e locais mais ou menos acentuadas, chegando a prevalecer, como hoje, diversos códigos para a matemática e as ciências em todo o mundo.
Com o propósito de unificar a simbologia Braille para a matemática e as ciências, realizou-se na cidade de Viena, em 1929, um congresso, reunindo países da Europa e os Estados Unidos. Apesar desse esforço, a falta de acordo fez com que continuassem a prevalecer as divergências, que se acentuaram, face à necessidade de adoção de novos símbolos, determinada pela evolução técnica e científica do século XX.
O Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, criado em 1952, hoje União Mundial de Cegos, com apoio da UNESCO, passou a se preocupar, através de seus especialistas, com o problema da unificação da simbologia matemática e científica, em nível mundial.
Com esse propósito, a Organização Nacional de Cegos da Espanha (ONCE), em princípios da década de 1970, desenvolveu estudos, através da análise e comparação de diferentes códigos em uso no mundo, para, finalmente, propor um código unificado que denominou "Notación Universal".
A Conferência Ibero-Americana para a unificação do Sistema Braille, realizada em Buenos Aires, 1973, foi uma tentativa de se estabelecer um código único para países de língua castelhana e portuguesa. Na oportunidade, foram apresentados três trabalhos, elaborados pela Espanha, Argentina e Brasil. A acentuada divergência entre os códigos inviabilizou um desejável acordo.
O Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, reunido por seu Comitê Executivo na cidade de Riyadh, Arábia-Saudita (1977), criou o Subcomitê de Matemáticas e Ciências, integrado por representantes da Espanha, Estados Unidos, União Soviética, Alemanha Ocidental e Inglaterra, com a finalidade principal de promover, em diferentes países, estudos e experiências de âmbito nacional e regional, visando a unificação dos diversos códigos em uso.
Em nível de países de língua castelhana, finalmente, foi possível um acordo para a unificação da simbologia matemática, celebrado em 1987 na cidade de Montevidéu, durante uma reunião de representantes de imprensas Braille dos países que falam o referido idioma. A esta reunião compareceram representantes brasileiros como observadores.
Em nível mundial, o esforço para a unificação dos códigos matemáticos e científicos ainda não alcançou o êxito desejado.
Especialistas no Sistema Braille do Brasil, especialmente ligados ao Instituto Benjamin Constant e à, hoje, Fundação Dorina Nowill para Cegos, a partir da década de 1970, passaram a se preocupar com as vantagens que adviriam da unificação dos códigos de matemática e das ciências, uma vez que a tabela de Taylor adotada no Brasil desde a década de 1940, já não vinha atendendo satisfatoriamente à transcrição em Braille, sobretudo, após a introdução dos símbolos da matemática moderna, revelando-se esta tabela insuficiente para as representações matemáticas e científicas em nível superior.
Deste modo, o Brasil participou inicialmente e, posteriormente acompanhou os estudos desenvolvidos pelo Comitê de especialistas da ONCE, e que resultaram no Código de Matemática Unificado.
Em 1991 foi criada a Comissão para Estudo e Atualização do Sistema Braille em uso no Brasil, com a participação de especialistas representantes do Instituto Benjamin Constant, da Fundação Dorina Nowill para Cegos, do Conselho Brasileiro para o Bem-Estar dos Cegos, da Associação Brasileira de Educadores de Deficientes Visuais e da Federação Brasileira de Entidades de Cegos, com o apoio da União Brasileira de Cegos e o patrocínio do Fundo de Cooperação Econômica para Ibero américa - ONCE-ULAC. Os estudos desta comissão foram concluídos em 18 de maio de 1994, constando das principais resoluções a de se adotar no Brasil o Código Matemático Unificado para a Língua Castelhana, com as necessárias adaptações à realidade brasileira.
Por orientação da União Brasileira de Cegos, especialistas da Comissão na área da matemática vêm realizando estudos para o estabelecimento de estratégias para a implantação, em todo o território brasileiro, da nova simbologia matemática unificada.
Com o patrocínio financeiro da Organização Nacional dos Cegos da Espanha (ONCE), a Fundação Dorina Nowill para Cegos (FDNC), em 1998, publicou a primeira edição em Braille do Código Matemático Unificado para a Língua Portuguesa.
Sob o ponto de vista histórico, a utilização do Sistema Braille no Brasil pode ser abordada em três períodos distintos:
1854-1942
Em 1854 o Sistema Braille foi adotado no Imperial Instituo dos Meninos Cegos (hoje, Instituto Benjamin Constant), sendo assim, a primeira instituição na América Latina a utilizá-lo. Deve-se isto aos esforços de José Álvares de Azevedo, um jovem cego brasileiro, que o havia aprendido na França.
Diferentemente de alguns países, o Sistema Braille teve plena aceitação no Brasil, utilizando-se praticamente toda a simbologia usada na França. A exemplo de outros países, o Brasil passou a empregar, na íntegra, o código internacional de musicografia Braille de 1929.
1942-1963
Neste período verificaram-se algumas alterações na simbologia Braille em uso no Brasil.
Para atender à reforma ortográfica da Língua Portuguesa de 1942, o antigo alfabeto Braille de origem francesa foi adaptado às novas necessidades de nossa língua, especialmente para a representação de símbolos indicativos de acentos diferenciais.
Destaca-se, ainda, a adoção da tabela Taylor de sinais matemáticos, de origem inglesa, em substituição à simbologia francesa até então empregada.
A Portaria nº 552, de 13 de novembro de 1945, estabeleceu o Braille oficial para uso no Brasil, além de um código de abreviaturas, da autoria do professor José Espínola Veiga. Esta abreviatura teve uso restrito, entrando em desuso, posteriormente.
A Lei nº 4.169 de 04/12/1962, que oficializou as convenções Braille para uso na escrita e leitura dos cegos, além de um código de contrações e abreviaturas Braille, veio criar dificuldades para o estabelecimento de acordos internacionais, pelo que, especialistas brasileiros optaram por alterar seus conteúdos, em benefício da unificação do Sistema Braille.
1963-1995
Os fatos marcantes deste período podem ser assim destacados:
Em 05 de janeiro de 1963 foi assinado um convênio luso-brasileiro, entre as mais importantes entidades dos dois países, para a padronização do Braille integral (grau 1) e para a adoção, no Brasil, de símbolos do código de abreviaturas usado em Portugal.
Em relação à matemática, educadores e técnicos da FLCB e do IBC, principalmente, complementaram a tabela Taylor com o acréscimo de símbolos Braille aplicáveis à teoria de conjuntos.
A atuação profissional de pessoas cegas no campo da informática, a partir da década de 1970, fez com que surgissem diferentes formas de representação em Braille desta matéria, com base, sobretudo, em publicações estrangeiras. Em nível de imprensas e centro de produção Braille, finalmente, foi acordada em 1994, a adoção de uma tabela unificada para a informática.
Durante todo este período, o Brasil participou dos esforços do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos (hoje, União Mundial de Cegos) para atualização e a unificação do Sistema Braille, como o demonstram a contribuição brasileira à Conferência Ibero-Americana para Unificação do Sistema Braille (Buenos Aires, 1973), a participação de técnicos brasileiros, como observadores, na Reunião de Imprensas Braille de Países de Língua Castelhana (Montevidéu, 1987), a criação da Comissão para Estudo e Atualização do Sistema Braille em uso no Brasil (1991-1994), a atuação de especialistas brasileiros na Conferência "O Sistema Braille Aplicado à Língua Portuguesa" (Lisboa, 1994), além de outras iniciativas e atividades desenvolvidas.
Destaque-se, em todo este período, o trabalho conjunto da, hoje, Fundação Dorina Nowill para Cegos e do Instituto Benjamin Constant, através de seus especialistas, aos quais se reuniram, muitas vezes, competentes profissionais de outras importantes entidades brasileiras.
As tentativas de destacadas entidades de-e-para cegos, no sentido de se criar, em âmbito federal, uma comissão nacional de Braille não foram bem sucedidas. O insucesso, porém, foi certamente compensado pelo trabalho profícuo e harmonioso dos especialistas em Braille do Brasil.
A União Brasileira de Cegos, na assembléia geral ordinária de 28 de agosto de 1995, homologou a criação, no âmbito dessa entidade, da Comissão Brasileira do Braille, constituída de cinco membros.
Os membros da Comissão deveriam atender aos critérios de serem, preferentemente, usuários do Sistema Braille e de ter conhecimento e experiência reconhecidos no campo da produção de material Braille e da educação de cegos.
FINALIDADES DA COMISSÃO BRASILEIRA DO BRAILLE
1-Propor às autoridades competentes e diligenciar por sua execução, em nível nacional, a política de diretrizes e normas para o uso, o ensino, a produção e a difusão do Sistema Braille em todas as suas modalidades de aplicação, compreendendo, especialmente, a Língua Portuguesa, a matemática e outras ciências, a música e a informática;
2-Propor ao Governo Federal a promulgação de leis, a edição de decretos e regulamentações concernentes ao uso do Sistema Braille no Brasil, visando, inclusive, a unificação das aplicações do referido sistema em nível internacional, especialmente nas línguas portuguesa e castelhana;
3-Cumprir e fazer cumprir, no que lhe couber, os acordos internacionais referentes ao uso do Sistema Braille;
4-Funcionar como equipe técnica de assessoria sobre questões relativas ao uso do Sistema Braille, junto a entidade públicas e privadas;
5-Avaliar, permanentemente, a simbologia Braille adotada no país, atentando para a necessidade de adaptá-la ou alterá-la, face à evolução técnica e científica, particularmente, procurando compatibilizar esta simbologia, sempre que possível, com as adotadas nos países de línguas portuguesa e castelhana;
6-Manter intercâmbio permanente com comissões de Braille de outros países, de acordo com a política de unificação do Sistema Braille, em nível internacional;
7-Estabelecer, com base em estudos realizados, conteúdos, metodologias e estratégias a serem adotados em cursos de aprendizagem do Sistema Braille com caráter de especialização, treinamento e reciclagem de professores e de técnicos, como também nos cursos destinados a usuários do sistema e à comunidade, em geral;
8-Estabelecer critérios e fixar estratégias para a implantação de novas simbologias Braille que alterem ou substituam os códigos em uso no Brasil, prevendo a realização de avaliações sistemáticas com vistas a modificações de procedimentos, sempre que necessário;
9-Manter, com objetivos de estudo e de pesquisa, acervo bibliográfico de origem nacional e estrangeira, acera do Sistema Braille, compreendendo códigos, manuais, tabelas e outras publicações afins;
10-Elaborar catálogos, manuais, tabelas e outras publicações que facilitem o processo ensino-aprendizagem e o uso do Sistema Braille em todo o território nacional.
Esta iniciativa da União Brasileira de Cegos nivelou o Brasil com os países em que as questões referentes à leitura e à escrita das pessoas cegas são da competência de verdadeiras "Autoridades Braille".
COMISSÃO BRASILEIRA DO BRAILLE
Em 26 de fevereiro de 1999, o Ministro de Estado da Educação coroou condignamente todo o trabalho realizado pela Comissão Brasileira de Braille e pela União Brasileira de Cegos, instituindo no Ministério da Educação a Comissão Brasileira do Braille, através da Portaria nº 319, publicada no Diário Oficial da União de 02 de março de 1999.
O MINISTRO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO, no uso de suas atribuições e considerando o interesse do Governo Federal em adotar para todo o País, uma política de diretrizes e normas para o uso, o ensino, a produção e a difusão do Sistema Braille, em todas as modalidades de aplicação, compreendendo especialmente a Língua Portuguesa, a Matemática e outras Ciências, a Música e a Informática; considerando a permanente evolução técnico-científica que passa a exigir sistemática avaliação, alteração e modificação dos códigos e simbologia Braille, adotados nos Países de língua portuguesa e espanhola; e, finalmente, considerando a necessidade do estabelecimento de permanente intercâmbio com comissões de Braille de outros países, de acordo com a política de unificação do Sistema Braille, em nível internacional, RESOLVE:
Art. 1º - Fica instituída no Ministério da Educação, vinculada à Secretaria de Educação Especial - SEESP e presidida pelo titular desta, a Comissão Brasileira do Braille, de caráter permanente.
Art. 2º - A Comissão Brasileira do Braille, será constituída de oito membros sendo:
I) um representante do Instituto Benjamin Constant - IBC;
II) um representante da União Brasileira de Cegos - UBC;
III) um representante da Fundação Dorina Nowill para Cegos - FDNC;
IV) cinco representantes de instituições de-e-para cegos, escolhidos em fórum convocado pela União Brasileira de Cegos - UBC.
§ 1º - Os membros referidos nos itens I, II e III terão mandato de três anos e os no item IV terão mandato de dois anos.
§ 2º - Os representantes do Instituto Benjamin Constant - IBC, da União Brasileira de Cegos - UBC e da Fundação Dorina Nowill para Cegos - FDNC, referidos nos incisos I, II e III deste artigo, constituirão a Consultoria Técnico-Científica da Comissão.
§ 3º - Os cinco representantes escolhidos no fórum referido no inciso IV deste artigo, deverão preferencialmente atender as áreas de aplicação do Sistema Braille especificados no parágrafo subseqüente.
§ 4º - Os membros da Comissão Brasileira do Braille deverão ser pessoas de notório saber e larga experiência no uso do Sistema Braille, nas seguintes áreas:
a) Braille integral e abreviado (grau I e grau II) da língua portuguesa e conhecimentos específicos de simbologia Braille usada em outras línguas, em especial espanhol, francês e inglês;
b) simbologia Braille aplicada à matemática e ciências em geral;
c) musicografia Braille;
d) simbologia Braille aplicada à informática, produção Braille (transcrição, adaptação de textos, gráficos e desenhos em relevo e impressão).
§ 5º - Os trabalhos da Comissão serão considerados relevantes e as funções exercidas por seus membros não serão remuneradas, sendo vedada a percepção de vantagens pecuniárias de qualquer natureza, exceto despesas eventuais de passagens e diárias.
Art. 3º - Compete à Comissão Brasileira do Braille:
I) elaborar e propor a política nacional para o uso, ensino e difusão do Sistema Braille em todas as suas modalidades de aplicação, compreendendo especialmente a língua portuguesa, a matemática e outras ciências exatas, a música e a informática;
II) propor normas e regulamentações concernentes ao uso, ensino e produção do Sistema Braille no Brasil, visando a unificação das aplicações do Sistema Braille, especialmente nas línguas portuguesa e espanhola.
III) acompanhar e avaliar a aplicação de normas, regulamentações, acordos internacionais, convenções e quaisquer atos normativos referentes ao Sistema Braille.
IV) prestar assistência técnica às Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, bem como a entidades públicas e privadas, sobre questões relativas ao uso do Sistema Braille.
V) avaliar permanentemente a Simbologia Braille adotada no País, atentando para a necessidade de adaptá-la ou alterá-la face à evolução técnica e científica, procurando compatibilizar esta simbologia, sempre que for possível, com as adotadas nos países de língua portuguesa e espanhola.
VI) manter intercâmbio permanente com comissões de Braille de outros países de acordo com as recomendações de unificação do Sistema Braille em nível internacional.
VII) recomendar, com base em pesquisas, estudos, tratados e convenções, procedimentos que envolvam conteúdos, metodologia e estratégias a serem adotados em cursos de aprendizagem no Sistema Braille com caráter de especialização, treinamento e reciclagem de professores e de técnicos, como também nos cursos destinados a usuários do Sistema Braille e à comunidade geral.
VIII) propor critérios e fixar estratégias para implantação de novas Simbologias Braille que alterem ou substituam os códigos em uso no Brasil, prevendo a realização de avaliações sistemáticas com vistas a modificações de procedimentos sempre que necessário.
IX) elaborar catálogos, manuais, tabelas e outras publicações que facilitem o processo ensino-aprendizagem e o uso do Sistema Braille, em todo o território nacional.
Parágrafo único - Os itens IV, V, VI e IX, poderão constituir matéria de apreciação e deliberação da Consultoria Técnico-Científica.
Art. 4º - A SEESP assegurará o apoio técnico, administrativo e financeiro indispensável ao funcionamento da Comissão.
Art. 5º - A instalação da Comissão Brasileira do Braille dar-se-á no prazo de até sessenta dias da data de publicação desta Portaria.
Art. 6º - A Comissão elaborará o Regulamento Interno no prazo de sessenta dias a partir de sua instalação.
Art. 7º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.
(a) PAULO RENATO SOUZA
MEMBROS DA COMISSÃO BRASILEIRA DO BRAILLE
Os membros da Comissão Brasileira do Braille foram empossados pelo Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação, Dr. Paulo Renato Souza, em reunião realizada em Brasília, no dia 10 de junho de 1999. A Comissão ficou assim constituída:
Professora
Marilene Ribeiro dos Santos (titular da Secretaria de Educação
Especial do MEC e presidente da Comissão);
Membros da Consultoria Técnico-Científica:
Professora
Maria Helena Franco Sena (representante do Instituto Benjamin Constant),
Professor Edison Ribeiro
Lemos (representante da União Brasileira de Cegos - UBC), e
Professora Regina Fátima
Caldeira de Oliveira (representante da Fundação Dorina Nowill
para Cegos);
Membros indicados pelas organizações nacionais de-e-para cegos em foro específico da UBC:
Professor
Jonir Bechara Cerqueira,
Doutor Márcio Neves
Penido,
Maestro Angelin Loro,
Professora Lusia Maria de
Almeida, e
Professor Aristides Antônio
dos Santos.
AMERICAN FOUNDATION FOR THE BLIND. "Understanding Braille". New York, AFB, 1969.
FARREL, Gabriel. "The story of Blindness". Cambridge Harvard University Press, 1956.
HENRI, Pierre. "La vie et l'oevre de Louis Braille". Paris, Presses Universitaires de France, 1952.
IRWIN, Robert B. "As I saw it". New York, American Foundation for the Blind, 1955.
LOOMIS, Madeleine Seymour. "The Braille reference book". New York, Harper & Brothers, 1942.
MACKENZIE, Sir Clutha. "L'éscriture Braille dans le monde". Paris, UNESCO, 1954.
ROBLI, Jean. "The reading fingers". New York, American Foundation for the Blind, 1955.
_____."Louis Braille". Londres, Royal National Institute for the Blind, 1975.
RODENBERG, Luis W. "The story of embossed books for the Blind". New York, American Foundation for the Blind, 1955.
FRENCH, Richard Slayton. "From Homer to Helen Keller". New York, American Foundation for the Blind, 1932.
Fonte: Extraído/adaptado da segunda edição do livro "LOUIS BRAILLE, SUA VIDA E SEU SISTEMA" com a devida autorização de seus autores.